sábado, abril 22, 2017

Victoria


Admito que conhecia muito pouco da vida pessoal da rainha Vitória, à parte as máculas da era a que se viria a chamar vitoriana.
(E dos vestidos, é claro! Os vestidos! E os decotes! E as capas! E os coletes! E as gravatas! E as cartolas!... Mas vou tentar controlar-me.)
Desde já tenho um grande elogio a fazer a esta série: a precisão histórica que tentou sempre respeitar. Isto não devia ser um elogio, devia ser um requisito obrigatório quando se trata de uma série de ficção que pretende retratar a vida de personagens históricas e reais, mas ultimamente os argumentistas enveredaram pela mania irritante de alterar pessoas e factos ao serviço do que consideram (na cabeça deles) um enredo mais “chocante”. Exemplos: Os Tudors, Os Borgias... Não só não há qualquer necessidade, como há quem deteste estas liberdades, como há outras maneiras de contar uma história diferente da realidade (Fantasia, meus amigos, Fantasia!).
Não é doença que tenha contagiado esta “Victoria”, e nem que fosse só por isso já teria amado a série. Adorei, no fim de cada episódio, ir pesquisar sobre cada uma das personagens que me chamaram a atenção e descobrir que foram efectivamente reais e que a vida desta gente foi muito mais interessante do que eu tinha imaginado. (George III, avô de Vitória, teve 15 filhos legítimos da mesma mártir consorte, dois dos quais foram reis, mas por capricho do destino a descendência feminina de dois dos herdeiros à coroa quase tornava inevitável que fosse uma rainha a chegar ao trono, como aconteceu, como já tinha acontecido antes, como acontece agora. Destino da Inglaterra?...)

Série histórica à antiga
A série segue a vida da jovem Victoria desde o momento em que se torna rainha. Muito do encanto desta personagem se deve à interpretação da bela e talentosa Jenna Coleman, que ajuda a transformar esta história num verdadeiro conto de fadas. Por opção, a realização opta pelo estilo estético da época, o Romantismo em todo o seu esplendor, sem que tal retire qualquer realismo à narrativa histórica. Não podia ter sido uma melhor decisão!
Não contente com isso, a série desenvolve em paralelo algumas das histórias dos criados do palácio. O contraste é brutal. Aqui já temos o Realismo de Dickens (ainda um Realismo muito Romântico, na minha opinião), nas ruas esquálidas, sujas, escuras e nevoentas por onde estes se movimentam fora do ambiente palaciano, ruas onde crianças roubam e pedem esmola e vendem fósforos e mulheres sem escolha se prostituem nos cantos e becos mal iluminados, ruas onde se adivinha a passagem de um Jack Estripador, casas frias e miseráveis e roupas gastas até ao farrapo. Tudo isto era a outra face do Romantismo, a outra face do progresso que arrancou aos campos toda esta massa de indigentes cuja melhor oportunidade na vida seria uma posição como criados da casa real. É esta grande ambição que consegue Ms. Skerrett, personagem mais interessante, talvez, do que a própria Victoria, que confrontada entre a promessa de amor romântico (e incerto) e a independência financeira invejável como camareira da rainha, opta por desconfiar do amor e apostar na carreira, uma opção inteligente mas ainda assim amarga. Ms. Skerrett, e outras como ela, não se podiam dar ao luxo de acreditar no Romantismo.


Como num conto de fadas, a série termina com o nascimento da primeira filha de Vitória e Alberto, esposos amantíssimos e felizes para sempre. Desconheço, de momento, se há intenções de renovar a série, mas seria uma excelente ideia. O reino de Victoria foi longo e cheio de acontecimentos, e eu sempre gostaria de ver se a continuação permite o mesmo Romantismo do início ou se, forçosamente, se lhe sobreporá o iminente Realismo que se segue.


Depois de escrever este texto, descobri que a série foi mesmo renovada. A ver vamos, então.



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sábado, abril 15, 2017

A Cabana/The Shack, de WM. Paul Young


Cheguei a este livro pela curiosidade que me causou a sinopse, prova de que uma boa capa e uma boa sinopse podem prometer mais do que vem na embalagem. Parece que este livro é um best seller, e nem todos os leitores vão enganados como eu.
O começo até é interessante. Um homem, cuja filha de seis anos é barbaramente assassinada por um serial killer, recebe um bilhete (aparentemente) de Deus a marcar um encontro na cabana onde as roupas ensanguentadas da menina foram encontradas.
Toda a parte do romance que relata a viagem de férias em que a menina foi raptada é intensa e envolvente. Conseguimos compreender muito bem a angústia daquele pai que perde a filha (talvez a preferida), e aqui o romance assemelha-se ao policial. Da mesma forma, identificamo-nos com o desgosto, o luto e a culpa dos meses posteriores, em que Mackenzie, o pai, mergulha em profunda depressão.
Um dia, Mackenzie encontra um bilhete dactilografado na caixa do correio, supostamente de Deus, a convidá-lo para o tal encontro na cabana de montanha onde a sua filha foi assassinada. Mackenzie pensa que o bilhete pode ter três origens: uma brincadeira de mau gosto, um desafio do próprio assassino, ou uma autêntica mensagem divina. Todavia, Mackenzie decide ir ao encontro, e ir armado. Todo este enredo é de um suspense irresistível.
Não é todos os dias que se recebe um bilhete de Deus. A questão é, e ELE aparece?



***CONTÉM SPOILERS***

E a Justiça, Senhor?
Eu nunca tinha ouvido falar de "ficção cristã", mas agora que ouvi vou fugir dela como o Diabo da cruz. Não porque eu seja o Diabo, mas porque, a avaliar por este exemplo, é uma literatura muito má, tendenciosa e acrítica. O que me parecia uma boa premissa, o encontro entre Deus e um pai enraivecido e revoltado, perde-se num instante assim que Deus aparece. Sim, Deus aparece ao encontro! Li algumas críticas ao livro, que não conseguiram passar desta parte: a manifestação física de Deus. Que Deus não é assim, que não é assado. Eu quero lá saber como é que Deus se manifesta fisicamente, eu queria era saber o que Ele ia dizer àquele pai!
Ficção cristã ou não cristã, quando um autor se mete na aventura de falar por Deus, das duas uma: ou é brilhante, ou se espalha ao comprido. WM. Paul Young espalhou-se ao comprido. Assim que Deus aparece, acontece um efeito sedativo em Mackenzie, a quem, de repente, já não apetece estrangular Deus pela injustiça e crueldade que Este permitiu que acontecesse à sua filha. Fica grato, fica contente, fica eufórico de alegria. O que até faria sentido se Deus (este Deus de WM. Paul Young) conseguisse explicar a velha questão que atormenta toda a gente que pensa nestas coisas: porque é que um Deus de amor permite que o Mal aconteça? Este Deus de “A Cabana” é efectivamente um Deus de Amor, que proclama o afecto e prega o perdão. Mas então e a Justiça?
O resto do livro, que me recusei a abandonar, não passa de uma fantasia mística de um homem que parece estar numa trip de ácidos a ver Jesus, o Espírito Santo, uma rave de auras iridescentes das almas já partidas e um coro de anjos. Mackenzie, o homem revoltado em quem eu tinha posto tantas expectativas de conseguir colocar a Deus as perguntas difíceis, parece que fica pedrado no êxtase divino. Só porque Deus diz: “Eu gosto de ti”.
Ah sim? E Missy? A menina assassinada? Que justiça existe para Missy? Mas não faz mal, diz “Deus”, porque agora Missy está no Céu, com Jesus, e não podia estar melhor. Ah sim? Não podia estar melhor? Então o que é que andamos cá a fazer? Eu também quero ir para Jesus! Vamos todos suicidar-nos para irmos para Jesus mais depressa! E não se preocupem, se “Deus” perdoa o homem que matou uma menina de seis anos (e sabe-se lá que mais lhe fez) também perdoa um suicídiozinho.
Fiquei doente e deprimida durante uma boa semana depois de ler este livro. Não aconselho este livro a ninguém, especialmente a pessoas inteligentes. Faz mal ao cérebro e faz mal à alma.

O livro que recomendo, embora às vezes se perca em explicações pseudo-científicas que não faziam lá falta nenhuma, é “Conversations with God”, de Neale Donald Walsch (sim, os três volumes!). Não finge que é um romance, faz pensar, apresenta respostas lógicas, abre-nos a mente para outras perspectivas, e, acima de tudo, põe-nos um sorriso nos lábios.




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