segunda-feira, outubro 28, 2013

“O Livro dos Espíritos” – Provas, expiação e esquecimento

Capítulo “Espíritos errantes”


A alma reencarna imediatamente após a separação do corpo? [pergunta]
– Algumas vezes pode reencarnar imediatamente, mas normalmente só após intervalos mais ou menos longos. (…)

Em que se torna a alma no intervalo das encarnações? [pergunta]
– Espírito errante que aguarda nova oportunidade e a espera.

Qual a duração desses intervalos? [pergunta]
– De algumas horas a alguns milhares de séculos. Não há, propriamente falando, limite extremo estabelecido para o estado de erraticidade, que se pode prolongar por muito tempo, mas que nunca é perpétuo. O Espírito sempre encontra, cedo ou tarde, a oportunidade de recomeçar uma existência que sirva de purificação às suas existências anteriores.

Essa duração está subordinada à vontade do Espírito ou pode ser imposta como expiação? [pergunta]
– É uma consequência do livre-arbítrio. Os Espíritos têm perfeita consciência do que fazem, mas para alguns é também uma punição que a providência lhes impõe. Outros pedem para que se prolongue, a fim de progridem nos estudos que só podem ser feitos com proveito na condição de Espírito.

A erraticidade é, por si mesma, um sinal de inferioridade dos Espíritos? [pergunta]
– Não, porque existem Espíritos errantes de todos os graus. A encarnação é para o Espírito um estado transitório, como já dissemos, no seu estado normal o Espírito está liberto da matéria.

De que maneira os Espíritos errantes se instruem? É como nós? [pergunta]
– Eles estudam o seu passado e procuram os meios de se elevar, isso lhes inspira ideias que não tinham antes.

Os Espíritos errantes são felizes ou infelizes? [pergunta]
– São felizes ou infelizes de acordo como seu mérito. São infelizes e sofrem por causa das paixões das quais ainda conservaram a essência ou são infelizes segundo estejam mais ou menos desmaterializados. No estado de erraticidade, o Espírito entrevê o que lhe falta para ser mais feliz e procura os meios de alcançá-lo. Porém, nem sempre lhe é permitido reencarnar conforme sua vontade, o que é para ele uma punição.

Pois.


Capítulo “Mundos transitórios”


Existem, como já foi dito, mundos que servem aos Espíritos errantes como estâncias transitórias ou locais de repouso? [pergunta]
– Sim, existem. São particularmente destinados aos seres errantes, que podem neles habitar temporariamente. São como acampamentos, campos para repousar de uma erraticidade bastante longa, condição sempre um tanto angustiante. São posições intermediárias entre os outros mundos, graduados de acordo com a natureza dos Espíritos que podem alcançá-los e onde podem desfrutar de um bem-estar relativamente maior ou menor, conforme o caso.

Os Espíritos progridem durante a sua estada nos mundos transitórios? [pergunta]
– Certamente. Os que neles se reúnem é com o objectivo de se instruir e poder mais facilmente obter a permissão de alcançar lugares melhores e chegar à posição que os eleitos atingem.


Gosto desta ideia de mundos transitórios, destes acampamentos de "auto-ajuda". Espero que tenham muitos drunfos e muita terapia porque há gente que sai daqui feita em farrapos, sem vontade nenhuma de progredir ou sequer de continuar.

   
Capítulo “Prelúdio do retorno”


O Espírito pode antecipar ou retardar o momento da sua reencarnação? [pergunta]
– Pode antecipá-lo, solicitando-o nas suas preces. Pode também retardá-lo, recuar diante da prova, porque entre os Espíritos há também os cobardes e os indiferentes; mas não o fazem impunemente. Ele sofre, como quem recua diante do remédio salutar que pode curá-lo.

Se um Espírito se encontrasse bastante feliz por estar numa condição mediana na espiritualidade e se não tivesse ambição de progredir, poderia prolongar esse estado indefinidamente? [pergunta]
– Não, não indefinidamente. Progredir é uma necessidade que o Espírito sente, cedo ou tarde. Todos devem elevar-se, esse é o propósito do destino dos Espíritos.

A união do Espírito com um determinado corpo pode ser imposta pela Providência Divina? [pergunta]
– Pode ser imposta, bem como as diferentes provas, especialmente quando o Espírito ainda não está apto a fazer uma escolha com conhecimento de causa. Como expiação, o Espírito pode ser obrigado a se unir ao corpo de uma criança que por seu nascimento e pela posição que terá no mundo poderão ser para ele uma punição.


A reencarnação imposta é a minha concepção de Inferno.
Analisemos bem esta ideia: onde é que está o livre arbítrio se "todos devem elevar-se, esse é o propósito do destino dos Espíritos", ou sofrer? Como é que, pelo uso da força, se poderia alguma vez conduzir alguém à perfeição? À falsidade, à loucura, ao subservientismo, isso sim. Durante a vida na Terra, há pelo menos uma maneira de escapar à tirania: a morte. Como escapar da tirania eterna? Haverá por fim, como diz o Apocalipse, um extermínio de todos os iníquos, ou, para os "não alinhados", simplesmente sofrimento perpétuo?
Ideias que não cruzavam o espírito bem intencionado destes participantes nas conversas com os Espíritos antes de 1857, porque não tinham visto o Inferno na Terra. Tudo, para estes ingénuos, eram rosas e cantos angelicais.

   
Capítulo “Escolha das provas”


Na espiritualidade, antes de começar uma nova existência corporal, o Espírito tem consciência e previsão das coisas que acontecerão durante sua vida? [pergunta]
– Ele mesmo escolhe o género de provas que quer passar. Nisso consiste o seu livre arbítrio.

Então não é Deus que impõe os sofrimentos da vida como castigo? [pergunta]
– Nada acontece sem a permissão de Deus, que estabeleceu todas as leis que regem o universo. Perguntareis, então, porque Ele fez esta lei em vez daquela. Ao dar ao Espírito a liberdade de escolha, deixa-lhe toda a responsabilidade dos seus actos e de suas consequências, nada impede o seu futuro; o caminho do bem está à frente dele, assim como o do mal. Mas, se fracassa, resta-lhe uma consolação: nem tudo está acabado para ele. Deus, na sua bondade, deixa-o livre para recomeçar, reparando o que fez de mal. É preciso, aliás, distinguir o que é obra da vontade de Deus e o que é obra do homem. Se um perigo vos ameaça, não fostes vós que o criastes, foi Deus; mas tendes a liberdade de vos expor a ele, por terdes visto aí um meio de adiantamento, e Deus o permitiu.

Se o Espírito tem a escolha do género de prova que deve passar, todas as dificuldades que experimentamos na vida foram previstas e escolhidas por nós? [pergunta]
– Todas não é a palavra, porque não se pode dizer que escolhestes e previstes tudo o que vos acontece neste mundo até nas menores coisas. Vós escolhestes os géneros das provas; os detalhes são consequência da situação em que viveis e, frequentemente, das vossas próprias acções. Se o Espírito quis nascer entre criminosos, por exemplo, sabia dos riscos a que se exporia, mas não tinha conhecimento dos actos que viria a praticar; esses actos são efeito de sua vontade ou do seu livre-arbítrio. O Espírito sabe que, ao escolher um caminho, terá uma luta a suportar; sabe a natureza e a diversidade das coisas que enfrentará, mas não sabe quais os acontecimentos que o aguardam. Os detalhes dos acontecimentos nascem das circunstâncias e da força das coisas. Somente os grandes acontecimentos que influem na vida estão previstos. Se seguis um caminho cheio de sulcos profundos, sabeis que deveis tomar grandes precauções, porque tendes a probabilidade de cair, mas não sabeis em qual deles caireis; pode ser que a queda não aconteça, se fordes prudente o bastante. Se, ao passar na rua, uma telha cai na vossa cabeça, não acrediteis que estava escrito, como se diz vulgarmente.

O Espírito, nas provas que deve passar para atingir a perfeição, deve experimentar todas as tentações? Deve passar por todas as circunstância que podem incitar o orgulho, a inveja, a avareza, a sensualidade, etc? [pergunta]
– Certamente que não, uma vez que sabeis que há Espíritos que, desde o começo, tomam um caminho que os livra de muitas provas; mas, aquele que se deixa levar pelo mau caminho corre todos os perigos desse caminho. Um Espírito, por exemplo, pode pedir a riqueza e esta ser concedida; então, de acordo com o seu carácter, poderá tornar-se avarento ou pródigo, egoísta ou generoso, ou entregar-se a todos os prazeres da sensualidade; mas isso não quer dizer que tenha que passar forçosamente por todas essas tendências.

Quando o Espírito usa o seu livre-arbítrio, a escolha da existência corporal depende sempre de sua vontade, ou essa existência pode ser imposta pela vontade de Deus como expiação? [pergunta]
– Deus sabe esperar: não apressa a expiação. No entanto, perante a Lei, um Espírito pode ter uma encarnação compulsória quando, pela sua inferioridade, ou má vontade, não está apto a compreender o que lhe poderia ser mais útil e quando essa encarnação pode servir à sua purificação e adiantamento, ao mesmo tempo que lhe sirva de expiação.

Como o Espírito escolhe as provas que quer suportar? [pergunta]
– Ele escolhe as que podem ser para ele uma expiação, pela natureza dos seus erros, e lhe permitam avançar mais rapidamente. Uns podem escolher se impor uma vida de miséria e privações para tentar suportá-la com coragem; outros querem se experimentar nas tentações da riqueza e do poder, muito perigosas, pelo abuso e mau uso que delas se podem fazer e pelas paixões inferiores que desenvolvem; outros, enfim, preferem se experimentar nas lutas que têm que sustentar em contacto com o vício.

O homem na Terra, sob a influência das ideias terrenas, vê nas suas provas apenas o lado doloroso. Por isso lhe pareceria natural escolher as que, no seu ponto de vista, pudessem se conciliar com os prazeres materiais. Porém, na vida espiritual, compara esses prazeres ilusórios e grosseiros com a felicidade inalterável que percebe, e, então, nenhuma importância dá aos sofrimentos passageiros da Terra. O Espírito pode, em vista disso, escolher a prova mais rude e, consequentemente, a mais angustiosa existência, na esperança de atingir mais depressa um estado melhor, como o doente escolhe muitas vezes o remédio mais desagradável para se curar mais depressa. [Allan Kardec]

O Espírito pode se enganar sobre a eficácia da prova que escolheu? [pergunta]
– Ele pode escolher uma que esteja acima de suas forças e, então, fracassar. Pode também escolher alguma que não lhe dê nenhum proveito, que resulte numa vida ociosa e inútil; mas, então, uma vez de volta ao mundo dos Espíritos, percebe que nada ganhou e pede para reparar o tempo perdido, numa outra encarnação.

Um homem que pertença a uma raça* civilizada poderia, por expiação, reencarnar numa raça selvagem? [pergunta]
– Sim mas isso depende do género de expiação; um senhor que tenha sido cruel com os seus escravos poderá tornar-se escravo por sua vez e sofrer os maus tratos que fez os outros suportar. Aquele que um dia comandou poderá, numa nova existência, obedecer até mesmo àqueles que se curvaram à sua vontade. É uma expiação que lhe pode ser imposta, se abusou do seu poder. Um bom Espírito também pode escolher uma existência em que exerça uma acção influente e encarnar dentro de povos atrasados, para fazer com que progridam, o que, neste caso, é para ele uma missão.


* Por “raça”, à linguagem da época, devemos entender “povo” ou “sociedade” ou mesmo “cultura”, sem qualquer conotação racista. [Nota minha]



Esta é a parte mais interessante da doutrina espírita. Não é Deus que impõe os castigos. Deixa ao homem castigar-se a si próprio.
Voltamos a falar do jogo de computador, dos níveis, e do pau e da cenoura. O "pau", aqui, é o sofrimento de sucessivas reencarnações infelizes; a "cenoura", o escapar a elas através de um aperfeiçoamento previamente estabelecido, que o Espírito antevê na sua estadia éterea entre encarnações, e anseia por alcançar. Este aperfeiçoamento abre-lhe as portas para a tal felicidade "pura e eterna" que ele tem que querer para si. Para tal, oferece-se para voltar ao jogo e tentar novamente passar de nível.
Mas vamos considerar que de facto não é possível aqui, neste mundo de expiação e sofrimento, antever qualquer clarão de felicidade "pura e eterna". Vamos considerar que o Espírito se submete às provas de sua verdadeira e livre vontade. O Espírito decide então expiar as suas faltas e/ou aperfeiçoar-se, escolhendo para isso uma existência que lho permita fazer, mas nessa existência não se recorda de que fez essa escolha.

   
Capítulo “Esquecimento do passado”


Como o homem pode ser responsável por actos e reparar faltas das quais não tem consciência? Como pode aproveitar a experiência adquirida em existências caídas no esquecimento? Poderia conceber-se que as adversidades da vida fossem para ele uma lição ao se lembrar do que as originou; mas, a partir do momento que não se lembra, cada existência é para ele como a primeira e está, assim, sempre recomeçando. Como conciliar isso com a justiça de Deus? [pergunta]


Grande pergunta, e uma das mais pertinentes de todo "O Livro dos Espíritos".


– A cada nova existência o homem tem mais inteligência e pode melhor distinguir o bem do mal. Onde estaria o mérito, ao se lembrar de todo o passado? Quando o Espírito volta à sua vida primitiva (a vida espírita) , toda a sua vida passada se desenrola diante dele; vê as faltas que cometeu e que são a causa do seu sofrimento e o que poderia impedi-lo de cometê-las. Compreende que a posição que lhe foi dada foi justa e procura então uma nova existência em que poderia reparar aquela que acabou. Escolhe provas parecidas com as que passou ou as lutas que acredita serem úteis para o seu adiantamento, e pede a Espíritos Superiores para ajudá-lo nessa nova tarefa que empreende, porque sabe que o Espírito que lhe será dado por guia nessa nova existência procurará fazê-lo reparar as suas faltas, dando-lhe um a espécie de intuição das que cometeu. Essa mesma intuição é o pensamento, o desejo maldoso que frequentemente vos aparece e ao qual resistis instintivamente, atribuindo a maior parte das vezes essa resistência aos princípios recebidos de vossos pais, enquanto é a voz da consciência que vos fala. Essa voz é a lembrança do passado, que vos adverte para não recair nas faltas que já cometestes. O Espírito, ao entrar nessa nova existência, se suporta essas provas com coragem e resiste, eleva-se e sobe na hierarquia dos Espíritos, quando volta para o meio deles.


Se não temos, durante a vida corporal, uma lembrança precisa do que fomos e do que fizemos de bem ou mal em existências anteriores, temos a intuição disso, e nossas tendências instintivas são uma lembrança do nosso passado, às quais nossa consciência, que é o desejo de não mais cometer as mesmas faltas, nos adverte para resistir. [Allan Kardec]

Não há no esquecimento das existências passadas, principalmente nas que foram dolorosas, qualquer coisa de providencial, em que se revela a justiça divina? (…)
Concluamos: tudo o que Deus fez é bem feito e não nos cabe criticar as suas obras e dizer como deveria reger o universo.
A lembrança de nossas individualidades anteriores teria inconvenientes muito graves; poderia, em certos casos, nos humilhar muito; noutros, exaltar o nosso orgulho e, por isso mesmo, dificultar nosso livre-arbítrio. Deus deu, para nos melhorarmos, exactamente o que é necessário e basta: a voz da consciência e nossas tendências instintivas, privando-nos do que poderia nos prejudicar. Acrescentemos ainda que, se tivéssemos lembrança de nossos actos pessoais anteriores, teríamos igualmente a dos outros, e esse conhecimento poderia ter os mais desastrosos efeitos sobre as relações sociais. [Allan Kardec]


Novamente Kardec tem toda a razão. Teria efeitos desastrosos sobre as relações sociais. Se descobrir segredinhos da treta via Facebook já tem as consequências que tem! E não, não estou a ironizar. Imaginem agora descobrirem segredos e falsidades de séculos, de milénios, que determinada pessoa escondeu de vocês ou com os quais vos enganou. Imaginem que são próximos dessa pessoa porque têm uma ligação kármica a resolver. Nada seria resolvido. Vejo a lógica.


Pelo estudo de suas tendências instintivas, que são uma recordação do passado, o homem pode conhecer os erros que cometeu? [pergunta]
– Sem dúvida, até certo ponto; mas é preciso se dar conta da melhoria que pôde se operar no espírito e as resoluções que ele tomou na vida espiritual. A existência actual pode ser bem melhor que a precedente.

Os acontecimentos da vida corporal são, ao mesmo tempo, uma expiação pelas faltas passadas e provas que visam ao futuro. Pode-se dizer que da natureza dessas situações se possa deduzir o género da existência anterior? [pergunta]
– Muito frequentemente, uma vez que cada um é punido pelos erros que cometeu; entretanto, não deve ser isso uma regra absoluta. As tendências instintivas são a melhor indicação, visto que as provas pelas quais o Espírito passa se referem tanto ao futuro quanto ao passado.


Certo. Nem todas as provas são uma expiação do passado. No entanto, ao ser humano, que é inteligente, não custa muito somar dois mais dois e perceber que género de faltas cometeu em vidas passadas e que virtudes delas trouxe. As virtudes são instintivas. As faltas são pagas na mesma moeda. Logo, se sou traída, é porque traí. Se sou roubada, é porque roubei. Se sou explorada, é porque explorei. Uma vez ouvi, num filme qualquer: "Quando as coisas se começarem a repetir na tua vida começa a prestar-lhes atenção". E quando as coisas se repetem, é para prestar atenção. Como eu dizia, basta somar dois mais dois.

Houve algo que li n'"O Livro dos Espíritos" que fez para mim especial sentido: é possível que alguns Espíritos queiram redimir-se de demasiadas coisas numa única existência, para "passar de nível" mais depressa, e assim escolham provas extremamente duras que não conseguem suportar... e falham. Diz Kardec, noutra passagem, que se um homem não souber nadar mas escolher como prova atravessar a nado um oceano, certamente se afoga, mas Deus permite. (Haveria Espíritos a desaconselhá-lo de tal loucura, mas se o Espírito for teimoso...)






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quinta-feira, outubro 24, 2013

“O Livro dos Espíritos” – Música!

Capítulo “Percepções, sensações e sofrimentos dos Espíritos”


Os Espíritos são sensíveis à música? [pergunta]
– Quereis falar da vossa música? O que é ela perante a música celeste cuja harmonia nada na Terra vos pode dar uma ideia? Uma está para a outra como o canto de um selvagem está para uma suave melodia. Entretanto, os Espíritos vulgares podem sentir um certo prazer ao ouvir a vossa música, porque ainda não são capazes de compreender uma mais sublime. A música tem para os Espíritos encantos infinitos, em razão de suas qualidades sensitivas bastantes desenvolvidas. A música celeste é tudo o que a imaginação espiritual pode conceber de mais belo e mais suave.

Um post sobre música é um post sobre música, venha ele dos Espíritos ou de onde vier, e merece todo um destaque à parte.
Vamos lá dissecar as respostas deste Espírito porque tocou em nervos sensíveis.

Quereis falar da vossa música?
Em 1857, ou antes, não podia estar a falar da nossa música, mas avancemos.

O que é ela perante a música celeste cuja harmonia nada na Terra vos pode dar uma ideia?
Ui ui! Palavras de quem nunca ouviu Dead Can Dance. E de quem nunca ouviu uma guitarra eléctrica. Quando se fala de música, as pessoas e os Espíritos (vivos ou mortos) deviam ter o cuidado de respeitar os gostos dos outros. É bonito e fica bem.

Uma está para a outra como o canto de um selvagem está para uma suave melodia.
Muitos "cantos selvagens" e étnicos são melhores que muita treta de música erudita que se fez e faz para aí. Nem me interessa que se fale aqui de coros angélicos, como os imaginamos, e quem sou eu para me pronunciar sobre o que não conheço? É a arrogância da coisa que não suporto.

Entretanto, os Espíritos vulgares podem sentir um certo prazer ao ouvir a vossa música, porque ainda não são capazes de compreender uma mais sublime.
Aposto que vou ser um "Espírito vulgar", se me deixarem, a pairar por aí em tudo o que são festivais góticos deste mundo e dos outros, sempre à procura do sublime (do meu sublime). Se me deixarem, digo eu, porque me parece bom demais para ser verdade.

A música tem para os Espíritos encantos infinitos, em razão de suas qualidades sensitivas bastantes desenvolvidas.
Ah, estás certamente a fazer a distinção das massas que consomem tudo o que lhes põem à frente, ou saberias que entre os vivos já há Espíritos de "qualidades sensitivas bastantes desenvolvidas" em questões de música, tão desenvolvidas que consideram desinteressante o que possivelmente consideravas o mais sublime da música do teu tempo, Espírito do século XIX ou anterior.

A música celeste é tudo o que a imaginação espiritual pode conceber de mais belo e mais suave.
"Belo e suave". Depreende-se que no mundo dos Espíritos não se ouça Rammstein. Por outro lado, ficámos com uma ideia muito clara da tua concepção de "sublime". Que queres, somos vulgares!

(É por estas e outras que o meu interesse em falar com os mortos é completamente igual ao de falar com os vivos. Não é exactamente a mesma coisa?!)






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domingo, outubro 20, 2013

“O Livro dos Espíritos” – Amizade. Simpatia. Amor.

Capítulo “Separação da alma e do corpo”


O Espírito encontra imediatamente aqueles que conheceu na Terra e que desencarnaram antes dele? [pergunta]
– Sim, e de acordo com a afeição que havia entre eles, muitas vezes vêm recebê-lo na volta ao mundo dos Espíritos e o ajudam a se desprender das faixas da matéria. Assim como reencontra também muitos que havia perdido de vista durante a sua permanência na Terra. Vê os que estão na erraticidade, como também vai visitar os que estão encarnados.


Capítulo “Relações após a morte”


Como os homens que se conheceram na Terra se reconhecem no mundo dos Espíritos? [pergunta]
– Nós vemos a nossa vida passada e a lemos como num livro; ao ver o passado dos nossos amigos e inimigos, vemos a sua existência da vida à morte.

Os nossos parentes e amigos vêm algumas vezes ao nosso encontro quando deixamos a Terra? [pergunta]
– Sim, eles vêm ao encontro da alma que estimam. Felicitam-na como no retorno de uma viagem, se ela escapou dos perigos do caminho, e a ajudam a se despojar dos laços corporais. É a concessão de uma graça para os bons Espíritos quando aqueles que amam vêm ao seu encontro, enquanto o infame, o mau, se sente isolado ou é apenas rodeado por Espíritos semelhantes a ele: é uma punição.

Mais vale só do que mal acompanhado. Aqueles que não me acompanharam aqui, escusam também de me aparecer lá.
Quanto a ficar rodeada de Espíritos semelhantes… não acredito muito neles, maus ou bons. Até agora conheci muito poucos, e muito pouco semelhantes.
(Mas lá está, não me posso esquecer: é uma expiação. Não posso, em bom senso, descartar a hipótese de que tenha havido quem me amou, algures, mas não tenha sido autorizado a acompanhar-me aqui, no cárcere. Posso, mesmo assim, preparar-me para o pior dos cenários. Nem podia ser de outra maneira. Cada um espera o que está habituado.)

Os parentes e amigos sempre se reúnem depois da morte? [pergunta]
– Isso depende da sua elevação e do caminho que seguem para o seu adiantamento. Se um deles é mais avançado e marcha mais rápido do que o outro, não poderão permanecer juntos. Podem-se ver algumas vezes, mas somente estarão para sempre reunidos quando marcharem lado a lado, ou quando atingirem a igualdade na perfeição. Além disso, a impossibilidade de ver os seus parentes e amigos é, algumas vezes, uma punição.

E começa aqui na Terra.
Nem todos os Espíritos (nós, os vivos) andamos por aí carentes agarrados à primeira coisa que se encontra só para mostrar ao mundo que se tem alguém.
Eu acho triste. Tenho até pena.
O pior foi que por vezes alguns destes Espíritos (encarnadíssimos) tentaram agarrar-se a mim, enquanto precisaram, dando a parecer que era verdadeira amizade o que os movia. Apesar das decepções anteriores, acredito que devemos sempre abrir a porta, sem desconfiança, esperando o melhor. Mas uma vez fechada a porta, não se torna a abrir.

A parte que transcrevo a seguir não vai agradar aos românticos que procuram a alma gémea, mas cá vai mesmo assim:


Capítulo “Relações de simpatia e antipatia entre os Espíritos. Metades eternas.”

As almas que devem unir-se estão predestinadas a essa união desde a origem e cada um de nós tem, em alguma parte do universo, sua metade à qual um dia fatalmente se unirá? [pergunta]
– Não, não existe união particular e fatal entre duas almas. A união existe entre todos os Espíritos, mas em diferentes graus, de acordo coma categoria que ocupam, ou seja, de acordo com a perfeição que adquiriram: quanto mais perfeitos, mais unidos. Da discórdia nascem todos os males humanos; da concórdia resulta a felicidade completa.

Dois Espíritos perfeitamente simpáticos*, uma vez reunidos, o serão pela eternidade, ou podem se separar e se unir a outros? [pergunta]
– Todos os Espíritos são unidos entre si. Falo daqueles que atingiram a perfeição. Nas esferas inferiores, quando um Espírito se eleva já não tem a mesma simpatia por aqueles que deixou para trás.

* Na linguagem da época, “simpático” deve ser entendido como “semelhante, mutuamente agradável” [Nota minha]

A identidade necessária para a simpatia perfeita consiste apenas na semelhança de pensamentos ou sentimentos, ou ainda na uniformidade dos conhecimentos adquiridos? [pergunta]
– Na igualdade dos graus de elevação.


Não existe um alma gémea porque alguns Espíritos são mais rápidos a evoluir para graus de elevação superiores. É curioso como o mesmo pode acontecer já aqui na Terra, em menos de meia dúzia de anos.


Capítulo “Simpatias e antipatias terrenas”

Dois seres que se conhecem e se amam podem se encontrar em outra existência corporal e se reconhecer? [pergunta]
– Reconhecer-se, não; mas podem sentir-se atraídos um pelo outro. Frequentemente, as ligações íntimas fundadas numa afeição sincera não têm outra causa. Dois seres aproximam-se um do outro por consequências casuais em aparência, mas que são de facto a atracção de dois Espíritos que se procuram na multidão.

Não seria mais agradável para eles reconhecerem-se? [pergunta]
– Nem sempre; a lembrança das existências passadas teria inconvenientes maiores do que podeis imaginar. Após a morte, se reconhecerão, saberão o tempo que passaram juntos.

A simpatia vem sempre de um conhecimento anterior? [pergunta]
– Não. Dois Espíritos que se compreendem procuram-se naturalmente, sem que necessariamente se tenham conhecido em encarnações passadas.

De onde vem a repulsa instintiva que se tem por certas pessoas, à primeira vista? [pergunta]
– Espíritos antipáticos* que se adivinham e se reconhecem sem se falar.

* Da mesma forma, deve-se entender “antipáticos” como “dissemelhantes, desagradáveis um ao outro”. [Nota minha]

Muitas vezes travamos conhecimento com alguém que nos parece termos conhecido a vida toda. Segundo a doutrina dos Espíritos, pode não ser fruto de uma experiência em comum noutra reencarnação.


Capítulo “Transmissão oculta do pensamento”
Porque duas pessoas perfeitamente acordadas têm muitas vezes, instantaneamente, a mesma ideia? [pergunta]
– São dois Espíritos simpáticos que se comunicam e vêem reciprocamente os seus respectivos pensamentos, até mesmo quando o corpo não dorme.

Existe, entre os Espíritos que se encontram, uma comunicação de pensamentos que faz com que duas pessoas se vejam e se compreendam, sem ter necessidade dos sinais exteriores da linguagem. Pode-se dizer que falam a linguagem dos Espíritos. [Allan Kardec]


"Falam a linguagem dos Espíritos". Afinal, um final romântico.






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quarta-feira, outubro 16, 2013

“O Livro dos Espíritos” – Crianças. Missão. Morte. Aborto.

Capítulo “Destino das crianças após a morte”


O Espírito de uma criança que desencarna em tenra idade poderá ser tão avançado como o de um adulto? [pergunta]
– Algumas vezes é mais, porque pode ter vivido muito mais e ter mais experiência, principalmente se progrediu.

O Espírito de uma criança pode, então, ser mais avançado do que o do seu pai? [pergunta]
 – Isso é muito frequente: Vós mesmos não vedes isso muitas vezes na Terra?

De uma criança que morre em tenra idade, e, portanto, não tendo praticado o mal, podemos supor que o seu Espírito pertença aos graus superiores? [pergunta]
– Se não fez o mal, não fez o bem, e Deus não a isenta das provações que deve passar; o seu grau de pureza não ocorre porque tenha animado o corpo de uma criança, mas pelo progresso que já realizou.

Porque a vida é muitas vezes interrompida na infância? [pergunta]
– A duração da vida de uma criança pode ser, para o Espírito que nela está encarnado, o complemento de uma existência anterior interrompida antes do tempo. A sua morte é, muitas vezes, também uma provação ou uma expiação para os pais.

O que acontece com o Espírito de uma criança que morre em tenra idade? [pergunta]
– Ela recomeça uma nova existência.

Se o homem tivesse apenas uma existência e se, depois dela, sua destinação futura fosse fixada perante a eternidade, qual seria mérito de metade da espécie humana que morre em tenra idade, para desfrutar, sem esforços, da felicidade eterna? E com que direito ficaria desobrigada e livre das condições, muitas vezes tão duras, impostas à outras metade? Tal ordem de coisas não estaria de acordo com a justiça de Deus. Pela reencarnação, a igualdade é para todos. O futuro pertence a todos sem excepção e sem favorecer ninguém. [Allan Kardec]


Quis publicar esta parte porque é importante para os pais que tenham perdido um filho.


Capítulo “Semelhanças físicas e morais”

   
O Espírito dos pais tem influência sobre o do filho após o nascimento? [pergunta]
– Há uma influência muito grande. Como já dissemos, os Espíritos devem contribuir para o progresso uns dos outros. Pois bem, os Espíritos dos pais têm como missão desenvolver o dos seus filhos pela educação. É para eles uma tarefa: Se falharem, serão culpados.

Porque pais bons e virtuosos geram, às vezes, filhos de natureza perversa? Melhor dizendo, porque as boas qualidades dos pais nem sempre atraem, por simpatia, um bom Espírito para animar o seu filho? [pergunta]
– Um Espírito mau pode pedir pais bons, na esperança de que os seus conselhos o orientem a um caminho melhor, e muitas vezes, Deus lhe concede isso.

Os pais podem, pelos seus pensamentos e preces, atrair para o corpo de um filho um Espírito bom em preferência a um Espírito inferior? [pergunta]
– Não, mas podem melhorar o Espírito do filho que geraram e que lhes foi confiado: é o seu dever. Filhos maus são uma provação para os pais.


Novamente, nada a acrescentar.


Capítulo “União da alma e do corpo. Aborto”


Em que momento a alma se une ao corpo? [pergunta]
– A união começa na concepção, mas só se completa no instante do nascimento. No momento a concepção o Espírito designado para habitar para habitar determinado corpo liga-se a ele por um laço fluídico e vai aumentando essa ligação cada vez mais, até ao instante do nascimento da criança. O grito que sai da criança anuncia que ela se encontra entre os vivos e servidores de Deus.

A união entre o Espírito e o corpo é definitiva desde o momento da concepção? Durante esse primeiro período o Espírito poderia renunciar ao corpo designado? [pergunta]
– A união é definitiva no sentido de que nenhum outro Espírito poderá substituir o que está designado para aquele corpo. Mas, como os laços que o unem são muito frágeis, fáceis de romper, podem ser rompidos pela vontade do Espírito, se este recuar diante da prova que escolheu, nesse caso a criança não vive.

Que utilidade pode ter para um Espírito a sua encarnação num corpo que morre poucos dias após o seu nascimento? [pergunta]
– O ser não tem a consciência inteiramente desenvolvida da sua existência e a importância da morte é para ele quase nula. É muitas vezes, como já dissemos, uma prova para os pais.

O Espírito, uma vez unido ao corpo de uma criança e quando já não pode voltar atrás, lamenta, algumas vezes, a escolha que fez? [pergunta]
– Quereis dizer se, como homem, lastima a vida que tem? Se gostaria de outra? Sim. Lamenta-se da escolha que fez? Não; ele não sabe que a escolheu. O Espírito, uma vez encarnado, não pode lamentar uma escolha de que não tem consciência, mas pode achar a carga muito pesada e considerá-la acima de suas foças. São esses os casos dos que recorrem ao suicídio.

Como a união do Espírito e do corpo só está completa e definitivamente consumada após o nascimento, pode-se considerar o feto como tendo uma alma? [pergunta]
– O Espírito que deve animá-lo existe, de alguma forma, fora dele; não possui, propriamente falando, uma alma, já que a encarnação está apenas em via de se operar. Mas o feto está ligado à alma que deve possuir.

Quais são, para o Espírito, as consequências do aborto? [pergunta]
– É uma existência nula que terá de recomeçar.

O aborto provocado é crime, qualquer que seja a época da concepção? [pergunta]
– Há sempre crime quando se transgride a Lei de Deus. A mãe, ou qualquer outra pessoa, cometerá sempre um crime ao tirar a vida de uma criança antes do seu nascimento, porque é impedir a alma de suportar as provas das quais o corpo devia ser o instrumento.

No caso em que a vida da mãe esteja em perigo pelo nascimento do filho, existe crime ao sacrificar a criança para salvar a mãe? [pergunta]
– É preferível sacrificar o ser que não existe a sacrificar o que existe.

É racional ter pelo feto a mesma atenção que se tem pelo corpo de uma criança que tenha vivido? [pergunta]
– Em tudo isso deveis ver a vontade de Deus e a Sua obra. Não trateis, portanto, levianamente as coisas que deveis respeitar. Porque não respeitar as obras da Criação, que são incompletas algumas vezes pela vontade do Criador? Isso pertence aos seus desígnios, que ninguém é chamado a julgar.


Idem.




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sábado, outubro 12, 2013

“O Livro dos Espíritos” – Do corpo e do mundo material

Capítulo “Encarnação nos diferentes mundos”


As nossas diferentes existências corporais passam-se todas na Terra? [pergunta]
– Não. Nem todas, mas em diferentes mundos. As que passamos na Terra não são nem as primeiras nem as últimas, embora sejam das mais materiais e mais distantes da perfeição.

Podemos voltar à Terra após ter vivido em outros mundos? [pergunta]
– Seguramente. Já vivestes em outros mundos além da Terra.

Existe alguma vantagem em voltar a habitar a Terra? [pergunta]
– Nenhuma vantagem em particular, a menos que se esteja em missão. Nesse caso se progride aí como em qualquer outro mundo.

Não seria melhor permanecer como Espírito? [pergunta]
– Não, não. Seria permanecer estacionário, e o que se quer é avançar para Deus.

Os Espíritos, após terem encarnado em outros mundos, podem encarnar neste, sem nunca terem passado por aqui? [pergunta]
– Sim, como vós em outros mundos. Todos os mundos são solidários: o que não se cumpre em um se cumpre em outro.

Desse modo, há homens que estão na Terra pela primeira vez? [pergunta]
 – Há muitos e em diversos graus.

Os espíritos podem encarnar corporalmente num mundo relativamente inferior àquele em que já viveram? [pergunta]
– Sim, se for para cumprir uma missão e ajudar ao progresso. Aceitam com alegria as dificuldades dessa existência, porque lhes oferecem um meio de avançar.

Isso não pode ocorrer por expiação? Deus não pode enviar Espíritos rebeldes para mundos inferiores? [pergunta]
– Os Espíritos podem permanecer estacionários, mas não regridem. Quando estacionam, a sua punição é não avançar e ter de recompor as existências mal empregadas num meio conveniente à sua natureza.

Os seres que habitam cada mundo atingiram um mesmo grau de perfeição? [pergunta]
– Não, é como na Terra: há seres mais avançados e menos avançados.

Sempre disse a muita gente que o inferno é aqui. Não acreditaram em mim, se calhar porque a existência das pessoas a quem o disse não seja um inferno. Lá está, há vidas de prova e vidas de expiação. A minha vida, aqui, é uma de expiação, e como tal, infernal. Nada do que leram até aqui constituiu uma surpresa para mim. Foi mais como uma clarificação do que eu já suspeitava.


Capítulo “Sexo nos Espíritos”

O Espírito que animou o corpo de um homem pode, em uma nova existência, animar o de mulher e vice-versa? [pergunta]
– Sim, são os mesmos Espíritos que animam os homens e as mulheres.

Quando está na erraticidade, o Espírito prefere encarnar no corpo de um homem ou de uma mulher? [pergunta]
– Isso pouco importa ao Espírito. Depende das provas de que deve suportar.

Os Espíritos encarnam como homens ou mulheres, porque não têm sexo. Como devem progredir em tudo, cada sexo, assim como cada posição social, lhes oferece provas, deveres especiais e a ocasião de adquirir experiência. Aquele que encarnasse sempre como homem apenas saberia o que sabem os homens. [Allan Kardec]

Também nada disto constituiu nenhuma surpresa para mim. A surpresa seria que não fosse assim.
E novamente tenho de salientar a modernidade do livro. Publicar coisas destas, em 1857, se não considerado blasfémia seria no mínimo um atentado à moral e aos bons costumes. Um homem, encarnar num corpo de mulher, e vice versa? O escândalo! A falta de pudor! Um homem conhecer em si os recantos privados da mulher e a mulher tocar em si a virilidade masculina! E trocar, com quem troca de corpo, de facto, trocando de corpo! A simples ideia de que todos nós já fomos homens e mulheres, ambos!
Acredito que só por causa disto muitos exemplares de “O Livro dos Espíritos” possam ter sido queimados, ou proibidos, ou vilipendiados. Muitos espíritos (vivos, não mortos) ainda não estão ao nível de aceitar sexo entre pessoas do mesmo sexo, quanto mais sexos diferentes na sua própria pessoa! Sinceramente, até me faz rir. Só por isto já vale a pena ansiar pelo Além, só para assistir à cara de algumas pessoas quando confrontadas com a revelação que em algumas reencarnações não foram um José mas uma Josefina, e vice versa! Mandem-me outra vez para o Inferno logo a seguir, mas deixem-me ver isso!

E falando de físicos e de aparências, e de quem vê caras não vê corações:


O homem, pelo Espírito, conserva traços físicos das existências anteriores nas suas diferentes encarnações? [pergunta]
– O corpo que foi anteriormente destruído não tem nenhuma relação com o novo. Entretanto, o Espírito se reflecte no corpo. Certamente, o corpo é apenas matéria, mas apesar disso é modelado de acordo com a capacidade do Espírito que lhe imprime um certo carácter, principalmente ao rosto, e é verdade quando se diz que os olhos são o espelho da alma, ou seja, é o rosto que mais particularmente reflecte a alma. É assim que uma pessoa sem grande beleza tem, entretanto, algo que agrada quando é animada por um Espírito bom, sábio, humanitário, enquanto existem rostos muito belos que nada fazem sentir, podendo até inspirar repulsa. Poderíeis pensar que apenas os corpos muito belos servem de envoltório aos Espíritos mais perfeitos; entretanto encontrais, todos os dias, homens de bem sem nenhuma beleza exterior. (…)

Tendo em vista que o corpo que reveste a alma na nova encarnação não tem necessariamente nenhuma relação com o da encarnação anterior, uma vez que em relação a ele pode ter uma procedência completamente diferente, seria absurdo admitir que numa sucessão de existências ocorressem semelhanças que não passam de casuais. Entretanto, as qualidades do Espírito modificam frequentemente os órgãos que servem às suas manifestações e imprimem ao semblante, e até mesmo ao conjunto das maneiras, um cunho especial. É assim que, sob o envoltório mais humilde, pode-se encontrar a expressão de grandeza e da dignidade, enquanto sob a figura do grande senhor pode-se ver algumas vezes a expressão da baixeza e da desonra. Algumas pessoas, saídas da mais ínfima posição, adquirem, sem esforços, os hábitos e as maneiras da alta sociedade. Parece que elas reencontram o seu ambiente, enquanto outras, apesar do seu nascimento e educação, estão nesse mesmo ambiente sempre deslocadas. Como explicar esse facto senão como um reflexo do que o Espírito foi antes? [Allan Kardec]

Ó Kardec, tu fazes ideia da snobeira que acabaste de pronunciar aqui? Só por causa disso já não te livras de mais duas ou três encarnações, aposto que como sem-abrigo, para que quando te vires roto e descalço percebas o que a “alta sociedade” pensa de ti e das tuas maneiras, e como estarão dispostos a aceitar-te de braços abertos para o chá das cinco devido ao teu “digno semblante” de Espírito avançado. Tu achas mesmo que alguém desses estupores dessa gente reconhece a majestade no semblante de um pobre?!
Desculpa lá, que conversa de rico!
Agora é assim: não me venhas responder esta noite, tocando-me com o dedo nas costas, porque me pregas um grande susto que não me apetece nada apanhar. Se quiseres, falaremos disto noutra altura, cara a cara, ou perispírito a perispírito, olha, no mundo dos Espíritos, tá?
(Estou a brincar, senhor Kardec. Não tenho a mínima apetência para discutir, com mortos ou vivos, os preconceitos das classes "finas", a que não pertenço e a que não tenho qualquer vontade de me associar por já lhes ter visto demais do que a minha conta. Mas lá está, é a expiação.)

Existem muitas passagens d'"O Livro dos Espíritos" que demonstram bem como esta era uma doutrina para as classes "superiores". Desde a linguagem à natureza dos temas abordados e às preocupações colocadas à apreciação dos Espíritos. Nota-se melhor do que qualquer mencionado vestígio de vidas anteriores podia deixar em qualquer rosto.
Desconheço a classe social preponderante dos espíritas actuais.



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terça-feira, outubro 08, 2013

“O Livro dos Espíritos” – Reencarnação

Capítulo “Objectivo da Encarnação”

Qual o objectivo da encarnação dos Espíritos? [pergunta]
– A Lei de Deus lhes impõe a encarnação com o objectivo de fazê-los chegar à perfeição. Para uns é uma expiação; para outros é uma missão. Mas, para chegar a essa perfeição, devem sofrer todas as tribulações da existência corporal: é a expiação. A encarnação tem também um outro objectivo: dar ao Espírito condições de cumprir sua parte da obra da criação. Para realizá-la é que, em cada mundo toma um corpo em harmonia com a matéria essencial desse mundo para executar aí, sob esse ponto de vista, as determinações de Deus, de modo que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.


Capítulo “A reencarnação”

A alma tem, portanto, que passar por muitas por muitas existências corporais? [pergunta]
 – Sim, todos nós temos muitas existências. Os que dizem o contrário querem vos manter na ignorância em que eles próprios se encontram. Esse é o desejo deles.

O número de existências corporais é limitado ou o Espírito reencarna perpetuamente? [pergunta]
 – A cada nova existência, o Espírito dá um passo no caminho do progresso. Quando se libertar de todas as suas impurezas, não tem necessidade das provações da vida corporal.

O número de encarnações é o mesmo para todos os Espíritos? [pergunta]
 – Não; aquele que caminha rápido poupa-se das provas. Todavia, essas encarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porque o progresso é quase infinito.

Em que se torna o Espírito após a sua última encarnação? [pergunta]
– Espírito bem-aventurado; é um Espírito puro.*

* Na terminologia de “O Livro dos Espíritos”, refere-se aos anjos. [Nota minha]


Capítulo “Justiça da reencarnação”

Em que se baseia o dogma da reencarnação? [pergunta]
– Na justiça de Deus e na revelação, e repetimos incessantemente: um bom pai deixa sempre para os seus filhos uma porta aberta ao arrependimento. A razão não vos diz que seria injusto privar, para sempre, da felicidade eterna todos aqueles cujo aprimoramento não dependeu deles mesmos? Não são todos os homens filhos de Deus? Só os homens egoístas podem pregar a injustiça, o ódio implacável e os castigos sem perdão.

Todos os Espíritos estão destinados à perfeição, e Deus lhes fornece os meios de alcançá-la pelas provações da vida corporal. Mas, na Sua Justiça, lhes permite cumprir, em novas existências, o que não puderam fazer, ou acabar, numa primeira prova.
Não estaria de acordo nem com a igualdade, nem com a bondade de Deus condenar para sempre os que encontraram, no próprio meio em que viveram, obstáculos ao seu melhoramento, independentemente de sua vontade. Se a sorte do homem estivesse irrevogavelmente fixada após a morte, Deus não teria pesado as acções de todos numa única e mesma balança e não agiria com imparcialidade. [Allan Kardec]

Uma vez disse aqui, meio a sério meio a brincar, que a reencarnação é como um jogo de computador. Em cada existência a alma pratica, ganha pontos, aperfeiçoa-se, e, quando consegue, sobe de nível. À parte as devidas distâncias, continuo a pensar que é isto sem tirar nem pôr.
Não gosto do objectivo final: ser um anjo. Confesso que a minha noção dos seres angélicos não é a melhor mas talvez esteja equivocada. Entretanto, enquanto estou ou não equivocada, seja mesmo este o objectivo último ou outra coisa (outra coisa perfeita, semelhante a um anjo), quem é quer trabalhar por uma felicidade "pura e eterna" em que não acredita?
Erro de marketing. Se não é erro de marketing é pior; é tirania. Ou chegas cá pelo pau ou pela cenoura, mas chegas cá. À perfeição.
Talvez os participantes nas sessões espíritas transcritas n'"O Livro dos Espíritos", publicado em 1857, não fizessem a mais pálida ideia da impressão que isto causa a pessoas do século XX. Talvez ficassem entusiasmados, esperançosos, uma alternativa ao Céu e ao Inferno, uma doutrina rebelde para a mentalidade do tempo. Saliento que se diz que o Espírito encarna em muitos mundos, não apenas na Terra, assumindo vários tipos de corpos físicos, adaptados ao mundo em que encarna. Considerando a data de publicação, quer se acredite que foi ditado pelos espíritos ou não, e que não pretende ser ficção científica, nem sequer ficção, mas religião!, é espantoso! Absolutamente espantoso!
Mas a alma do século XX vê, em vez disto, campos de concentração, lavagens cerebrais, cultos e seitas nocivas, extermínio em massa dos desobedientes. O século XX assistiu ao Apocalipse e pior. Estava previsto? Que no século XXI considerássemos ingénua esta doutrina, porque também este é um nível? O nível em que não acreditamos em perfeição, pureza ou felicidade? Em que não acreditamos em "acreditar"?
Diria antes que gosto de acreditar nesta explicação, porque faz sentido para mim. É lógico, é racional. O que não quer dizer que concorde com o "processo", mas faz sentido.
Na verdade, foi a única explicação plausível que encontrei para a minha existência e não pretendo separar-me dela. Na altura em que li "O Livro dos Espíritos", depois dos 25 e antes dos trinta, compreendi que a minha é uma vida de expiação. Tive esperança de que a expiação servisse igualmente o propósito de se transformar também numa vida de missão. Mas aos quarenta anos já não tenho dúvidas. Não estou aqui para cumprir uma missão nem para desfrutar dos prazeres da existência terrestre. Estou na prisão. Tenho a sorte de escrever cartas cá para fora, mas sem dúvida estou na prisão.

Mais quando o assunto o proporcionar.






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sexta-feira, outubro 04, 2013

“O Livro dos Espíritos” – O destino dos animais


Hoje, 4 de Outubro, é o Dia Internacional do Animal.



Capítulo “Os animais e o homem”

Se compararmos o homem e os animais sob o ponto de vista da inteligência, a linha de demarcação parece difícil de se estabelecer, porque alguns animais têm, sob esse aspecto, uma superioridade notória sobre alguns homens. Essa linha pode ser estabelecida de uma maneira precisa? [pergunta]
– Sobre esse ponto os vossos filósofos não estão de acordo em quase nada: uns querem que o homem seja um animal e outros que o animal seja um homem; todos estão errados. O homem é um ser à parte que desce muito baixo algumas vezes, ou que pode elevar-se bem alto. Fisicamente o homem é como os animais, e até menos dotado que muitos deles; a natureza deu aos animais tudo o que o homem é obrigado a inventar com a sua inteligência para satisfazer suas necessidades e sua conservação. É verdade que o seu corpo se destrói como o dos animais, mas o seu Espírito tem um destino que somente ele pode compreender, porque apenas o homem é completamente livre. Pobres homens que vos rebaixais além da brutalidade! Não sabeis vos distinguir? Reconhecei o homem pelo sentimento que ele tem da existência de Deus.


E quem diz que os animais não têm o sentimento da existência de Deus, se calhar maior, porque a terem-no será instintivo em vez de pensado e repensado? Quem é que o homem julga que é para saber o que sentem os animais só porque eles não falam (com o homem)?
Só porque eu não te falo de Deus não significa que eu não saiba o que é Deus. Posso achar que tu és demasiado limitado para me ouvires falar de Deus. 
E quanto àquelas pessoas mudas, surdas e cegas, que em tempos eram consideradas brutas como um animal porque não sabiam comunicar com outros humanos? Pode alguém dizer que essas pessoas não sabiam o que era Deus? Porque ninguém lhes ensinou o que era Deus? Nesse caso, igualmente não sabiam o que era o Amor, porque não conheciam a palavra para o Amor? Quem se atreve a insinuar que a espiritualidade tem que ser ensinada e não é inata?
Mais à frente os Espíritos dizem que o animal não conhece Deus. Se Deus nos passasse à frente, "disfarçado" ou invisível, e nós não o reconhecêssemos, quem nos garante que o animal, capaz de pressentir tempestades através de sentidos muito mais apurados que os nossos, não O reconheceria? Quem é o animal mais limitado, afinal?


Os animais têm livre-arbítrio de seus actos? [pergunta]
– Eles não são simples máquinas, como se pode supor; mas a sua liberdade de acção é limitada às suas necessidades e não se pode comparar à do homem. Sendo muito inferiores ao homem, não têm os mesmos deveres. A sua liberdade é restrita aos actos da vida material.

Se os animais têm uma inteligência que lhes dá uma certa liberdade de acção, há neles um princípio independente da matéria? [pergunta]
– Sim, e que sobrevive ao corpo.

Esse princípio é uma alma semelhante à do homem? [pergunta]
– É também uma alma, se quiserdes, depende do sentido que se dá a essa palavra; mas é inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem tanta distância quanto há entre a alma do homem e Deus.


Sim! Os animais estão muito mais perto de Deus do que o homem alguma vez poderá estar.
Até por uma questão de lógica: os animais são as perfeitas criaturas, não questionam Deus. Não escrevem posts a duvidar da bondade de Deus. Não perguntam o porquê. Aceitam e existem e sofrem resignadamente. 
Pergunto mesmo: seria isto que Deus queria do Homem também?...


A alma dos animais conserva, após a morte, a sua individualidade e a consciência de si mesma? [pergunta]
– A sua individualidade, sim, mas não a consciência do seu eu. A vida inteligente continua no estado latente.

A alma dos animais tem a escolha de encarnar num animal em vez de outro? [pergunta]
– Não; ela não tem o livre-arbítrio.

A alma do animal, sobrevivendo ao corpo, estará, depois da morte, na erraticidade, como a do homem? [pergunta]
– É uma espécie de erraticidade, uma vez que não está mais unida ao corpo, mas não é um Espírito errante. O Espírito errante é um ser que pensa e age de acordo com sua livre vontade; o dos animais não tem a mesma faculdade. A consciência de si mesmo é que constitui o atributo principal do Espírito. O espírito do animal é classificado após a sua morte pelos Espíritos a quem compete essa tarefa e quase imediatamente utilizado; não há tempo de se colocar em relação com outras criaturas.

Os animais seguem uma lei progressiva, como os homens? [pergunta]
– Sim, por isso, nos mundos superiores, onde os homens são mais avançados, os animais também o são, tendo meios de comunicação mais desenvolvidos; mas são sempre inferiores e submissos ao homem, são para ele servidores inteligentes.

“Servidores inteligentes”: tenho para mim que este Espírito nunca conheceu um gato.


Os animais progridem, como o homem, pela acção da sua vontade ou pela força das coisas? [pergunta]
– Pela força das coisas. É por isso que para eles não há expiação.

Nos mundos superiores, os animais conhecem Deus? [pergunta]
– Não; para eles o homem é um deus, como antigamente os Espíritos foram deuses para os homens.

E como os animais foram deuses para os homens.


Os animais, mesmo os aperfeiçoados nos mundos superiores, são sempre inferiores ao homem. Isso significa que Deus teria criado seres intelectuais perpetuamente destinados à inferioridade, o que parece estar em desacordo com a unidade de vistas e de progresso que se distingue em todas as suas obras. [pergunta]

Grande pergunta!


– Tudo se encaixa na natureza pelos laços que não podeis ainda compreender, e as coisas mais desiguais na aparência têm pontos de contacto que o homem nunca chegará a compreender na sua condição actual. Ele pode entrevê-los pelo esforço da sua inteligência, mas somente quando essa inteligência tiver adquirido todo o desenvolvimento e estiver livre dos preconceitos do orgulho e da ignorância é que poderá ver claramente a obra de Deus. Enquanto isso não acontece, suas ideias limitadas lhe fazem ver as coisas sob um ponto de vista mesquinho e restrito. Sabei bem que Deus não pode se contradizer e que tudo, na natureza, se harmoniza pelas leis gerais que nunca se afastam da sublime sabedoria do Criador.

Assim, pode-se considerar que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferiores da Criação? [pergunta]
– Não dissemos que tudo se encadeia na natureza e tende à unidade? É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, individualiza-se pouco a pouco e ensaia para a vida, como já dissemos. É, de algum modo, um trabalho preparatório, como a germinação, em que o princípio inteligente sofre uma transformação e torna-se Espírito. É então que começa o período de humanização e com ela a consciência do seu futuro, a distinção entre o bem e o mal e a responsabilidade de seus actos. Assim como depois da infância vem a adolescência, depois a juventude e, enfim, a idade adulta. Não há, além disso, nessa origem nada que deva humilhar o homem. Será que os grandes génios se sentirão humilhados por terem sido fetos em formação no seio da sua mãe?
Se alguma coisa deve humilhá-lo é sua inferioridade perante Deus e sua impotência para sondar a profundidade dos seus desígnios e a sabedoria das leis que regem a harmonia do universo. Reconhecei a grandeza de Deus nessa harmonia admirável que faz com que tudo seja solidário na natureza. Acreditar que Deus pudesse fazer alguma coisa sem objectivo e ter criado seres inteligentes sem futuro seria blasfemar contra a sua bondade, que se estende sobre todas as suas criaturas.

A bondade de Deus! Não blasfememos contra a bondade de Deus que criou seres destinados a milhões e milhões e milhões de reencarnações em que sofrem a dureza dos elementos e a crueldade da natureza, e a crueldade e insensibilidade do homem, sendo maltratados, caçados, abatidos, torturados, comidos, por outros animais e pelo homem. Seres destituídos de inteligência suficiente para se revoltarem ou acusarem, ou sequer compreenderem.
A bondade de Deus.


Esse período de humanização começa na Terra? [pergunta]
– A Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana; o período de humanização começa, em geral, nos mundos ainda mais inferiores; entretanto, essa não é uma regra geral, e poderia acontecer que um Espírito, desde o começo da sua humanização, estivesse apto a viver na Terra. Esse caso não é frequente; é, antes, uma excepção.

Capítulo “Metempsicose”

O Espírito que animou o corpo de um homem poderia encarnar num animal? [pergunta]
– Isso seria retroceder e o Espírito não retrocede. O rio não retoma à sua fonte.


Conclusão, os animais têm uma alma que sobrevive à morte. Os seres humanos não reencarnam como animais (não retrocedem). O destino e progressão da alma dos animais é incerto e misterioso, mas existe. Nunca se diz que alguns animais não atinjam a progressão suficiente para serem homens. Talvez isto explique a quantidade de bestas de duas patas que acabaram de sair do animal e são agora humanos (há muito pouco tempo). Enquanto não evoluírem, continuarão a ser bestas, por muito humanos que sejam em aparência. O mundo está cheio deles.
(Talvez não seja exactamente assim que acontece a progressão dos animais, mas era uma boa explicação para o fenómeno.)

Tenho mais a dizer sobre o assunto. Escrevi o parágrafo acima numa intenção meramente crítica e impregnada do sarcasmo habitual. Mas depois pensei melhor sobre o assunto. O que distingue o homem do animal é a consciência moral, isto é, a capacidade de conhecer o Bem e o Mal (o que não é a mesma coisa que conhecer Deus; Deus podia nem existir e continuaríamos a conhecer o Bem e o Mal). O animal não tem esta consciência moral que só o intelecto permite desenvolver, age por instinto, mata e come sem remorso porque nunca questiona o Bem e o Mal dos seus actos. Nem poderia questionar porque o seu intelecto não é a esse nível desenvolvido. Imaginemos, pelo exercício que proporciona, colocar uma alma animal, amoral e instintiva, num corpo humano com um cérebro superior. Teremos um monstro. O que antes era natural e instintivo, mas desculpável pela falta de intelecto, torna-se agora, inteligente mas sem consciência moral, numa criatura capaz de tudo para satisfazer os seus apetites, inclusivamente matar, sem remorsos nem compaixão nem capacidade de sentir empatia. E temos aqui a definição de sociopata. Isto fez-me pensar.
Não me chocaria que o sociopata fosse as primeiras encarnações do animal no homem, mas já não animal porque já homem, e já não necessitando de protecção porque intelectualmente desenvolvido para se defender a si mesmo. Logo, definitivamente já não animal. Mas, sem consciência moral, já inteiramente homem? É uma pergunta que tenho feito a mim mesma e considerado que é perigoso responder-lhe, com ou sem reencarnação.
Mas uma questão pertinente quando se discute a superioridade e/ou inferioridade do homem e do animal.

Seria verdadeira a ideia da metempsicose se ela se definisse como sendo a progressão da alma de um estado inferior a um estado superior em que adquirisse desenvolvimentos que transformassem sua natureza. Porém, é falsa no sentido de transmigração directa do animal para o homem e vice-versa, o que dá ideia de um retrocesso ou de uma fusão (…)
O ponto de partida dos Espíritos é uma dessas questões que se ligam ao princípio das coisas e que estão nos segredos de Deus. Não é permitido ao homem conhecê-lo de maneira absoluta, e ele somente pode fazer a esse respeito suposições, construir sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios Espíritos estão longe de conhecer tudo; sobre o que não sabem podem também ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas.
É assim, por exemplo, que nem todos pensam a mesma coisa a respeito das relações que existem entre o homem e os animais. Segundo alguns, o Espírito só alcança o período de humanidade após ter sido elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores da Criação; segundo outros, o Espírito do homem teria sempre pertencido à raça humana, sem passar pela experiência animal. (…)
Quanto às relações misteriosas que existem entre os homens e os animais, está aí, nós repetimos, o segredo de Deus, como muitas outras coisas cujo conhecimento actual não importa ao nosso adiantamento e sobre as quais seria inútil insistir.
[Allan Kardec]


Penso que por esta altura já seria muito útil ao nosso adiantamento, quando já alguém disse que o desenvolvimento de uma civilização se pode medir pela maneira como se tratam os animais (posterior a Kardec).
Achei engraçado quando Kardec diz dos Espíritos: "Segundo alguns, o Espírito só alcança o período de humanidade após ter sido elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores da Criação; segundo outros, o Espírito do homem teria sempre pertencido à raça humana, sem passar pela experiência animal."
Imagino as discussões acaloradas durante essas sessões de espiritismo do século XIX, e ainda não tinham chegado "lá acima" os darwinistas!
Se a teoria de que o homem podia ter evoluído do macaco já fazia impressão a muita gente, esta ideia que defende que as origens do Espírito (mais importante porque ainda de maiores implicações religiosas do que a evolução do corpo) começam numa fase pré-humanização, isto é, que o Espírito já foi menos do que homem, talvez até menos do que animal, era uma ideia que não podia ter muitos amigos.
Esta parte das respostas dos Espíritos não é clara. Insinua-se que o (pré-)espírito do homem animou o animal (ou menor que isso) antes de ser um Espírito humano, mas nunca revela mais do que aquilo que transcrevi.





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terça-feira, outubro 01, 2013

“O Livro dos Espíritos” – Natureza e progressão dos Espíritos


Capítulo “Origem e Natureza dos Espíritos”

Compreende-se que o princípio de onde emanam os Espíritos seja eterno, mas o que perguntamos é se a sua individualidade tem um fim e se, num dado momento, mais ou menos longo, o elemento do qual são formados se dispersa e retoma à massa de onde saiu, como acontece com os corpos materiais. É difícil compreender que uma coisa que começou não possa acabar. Os Espíritos têm fim? [pergunta]
– Há coisas que não compreendeis, porque a vossa inteligência é limitada. Mas isso não é razão para serem rejeitadas. (…) Nós vos dizemos que a existência dos Espíritos não acaba; é tudo o que, por agora, podemos dizer.

É curioso. Aqui há uns anos cheguei à conclusão de que não é difícil para o intelecto humano conceber algo sem fim; o que é difícil, senão impossível, é conceber algo sem princípio.
É por isso que, apesar de termos uma teoria plausível para o começo do universo, o Big Bang, continuamos a questionar: e o que aconteceu antes do Big Bang? E antes disso? E antes disso?...
Compreendemos a eternidade, mas até a eternidade teve que ter um princípio. Algo que não tem princípio faz-nos muito mais confusão do que algo que não tem fim, e considero isso muito curioso. Muito humano, digamos assim, porque Deus não teria princípio nem fim: seria perpétuo. Essa noção de perpetuidade, sem princípio nem fim, escapa-nos. Não nos escapa o não ter fim, sabemos que muitas coisas não têm fim. Mas tudo tem que ter um princípio ou não o compreendemos.
Pergunto-me mesmo como é que podíamos ter inventado a noção de um Deus sem princípio, se a noção nos escapa. Muitos deuses "primitivos", chamemos-lhes assim, tinham um princípio. Havia toda uma série de lendas de como tinham surgido, de onde tinham nascido, quem eram os seus pais e quem eram os seus filhos. Era fácil de perceber. Seria de esperar que a nossa concepção moderna de Deus fosse ainda mais fácil de perceber, porque somos mais científicos e menos crédulos e não gostamos de coisas que ultrapassem a nossa compreensão porque nos julgamos capazes de compreender tudo, mas, pelo contrário, a nossa concepção de Deus é muito mais complexa. Criámos, finalmente, um Deus que nos ultrapassa, ou Ele deu-Se a conhecer? Deixo a cada um responder.



Capítulo “Materialismo”

O homem tem o pensamento instintivo de que nem tudo se acaba quando cessa a vida. Tem horror ao nada. Ainda que teime e resista inutilmente contra a ideia da vida futura, quando chega o momento supremo são poucos os que não se perguntam o que vai ser deles; a ideia de deixar a vida e não mais retornar é dolorosa. Quem poderia, de facto, encarar com indiferença uma separação absoluta, eterna, de tudo o que amou? Quem poderia, sem medo, ver abrir-se diante de si o imenso abismo do nada onde se dissiparão para sempre todas as nossas capacidades, todas as nossas esperanças (…)
Temos uma alma, sim, mas o que é a nossa alma? Ela tem uma forma, uma aparência qualquer? É um ser limitado ou indefinido? Uns dizem que é um sopro de Deus; outros, uma centelha; outros, uma parte do grande Todo, o princípio da vida e da inteligência, mas o que tudo isso nos oferece? O que nos importa ter uma alma se depois da morte ela se confunde na imensidade como gotas de água no oceano? A perda da individualidade não é para nós o mesmo que o nada? [Allan Kardec]

A primeira vez que ouvi falar de certas doutrinas místicas que defendem que após a morte a alma regressa a Deus, "dissolvendo-se" Nele, confesso que fiquei muito assustada. Estava preparada para a morte, até para a morte do pó e do nada, mas a ideia de ser "sugada", como uma força vital, para dentro de um Deus, dava-me calafrios. Essa seria a Morte de todas as mortes. Mas, pensando melhor, Allan Kardec tem razão. Uma vez "dissolvida" a individualidade no todo, desapareceria também a consciência de ter sido dissolvido, ou de estar morto, ou de alguma vez ter existido, ou meramente de ser. É o mesmo que a morte do pó e do nada e não deve assustar nem mais nem menos. É outra espécie de nada.



Capítulo “Progressão dos Espíritos”

Os Espíritos são bons ou maus por natureza ou são eles mesmos que se melhoram? [pergunta]
São os próprios Espíritos que se melhoram, passando de uma ordem inferior para uma ordem superior.

Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, ou seja, sem conhecimento. Deu a cada um uma missão com o objectivo de esclarecê-los e de fazê-los chegar, progressivamente, à perfeição pelo conhecimento da verdade para aproximá-los de Si. A felicidade eterna e pura é para os que alcançam essa perfeição. Os Espíritos adquirem esses conhecimentos ao passar pelas provas que a Lei Divina lhes impõe. Uns aceitam essas provas com submissão e chegam mais depressa ao objectivo que lhes é destinado. Outros somente as suportam com lamentação e por causa dessa falta permanecem mais tempo afastados da perfeição e da felicidade prometida.

Há Espíritos que permanecerão perpetuamente nas classes inferiores? [pergunta]
Não, todos se tornarão perfeitos. Eles progridem, mas demoradamente. Como já dissemos, um pai justo e misericordioso não pode banir eternamente os seus filhos. Pretenderíeis que Deus, tão grande, tão bom, tão justo, fosse pior do que vós mesmos?

É caso para responder que há pais muito maus, muito maus, muito maus, entre "nós mesmos". Péssimo exemplo que este Espírito foi buscar.

Os Espíritos podem se degenerar? [pergunta]
Não; à medida que avançam, compreendem o que os afasta da perfeição. Quando o Espírito acaba a prova, fica com o conhecimento que adquiriu e não o esquece mais. Pode ficar estacionário, mas retroceder, não retrocede.

Deus não poderia isentar os Espíritos das provas que devem sofrer para atingir a primeira ordem? [pergunta]
Se tivessem sido criados perfeitos, não teriam nenhum mérito para desfrutar dos benefícios dessa perfeição. Onde estaria o mérito sem a luta? Além do mais, a desigualdade entre eles é necessária para desenvolver a personalidade, e a missão que realizam nessas diferentes ordens está nos desígnios da Providência para a harmonia do Universo.

Porque alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal? [pergunta]
Não têm eles o livre arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, ou seja, com as mesmas aptidões tanto para o bem quanto para o mal, os que são maus o são por vontade própria.

Nunca se questiona n'"O Livro dos Espíritos" algo muito simples: porque é que Deus pensou que as suas criaturas haveriam de ficar contentes por terem sido criadas? É a primeira pergunta de todas. Depois se pode partir para as outras: porque é que as criaturas, dotadas de inteligência e opiniões pessoais e grandes diferenças entre si, haveriam de aprovar este "sistema educacional", por assim dizer? Porque é que as criaturas haveriam de ter todas a mesma noção de felicidade, especialmente a "eterna e pura", já para não falar na "perfeição", se o que para uns é bonito para outros é feio? Andamos sempre na mesma questão. Deus criou-nos assim de propósito, uns submissos outros rebeldes, porque queria que fôssemos diferentes, ou a Experiência correu mal? Se a Experiência de Deus não pode correr mal, se nos criou assim de propósito, criou algumas criaturas propositadamente para serem infelizes no "sistema"?
"O Livro dos Espíritos" nunca questiona nada disto porque foi publicado em 1857. Diz-se, muitas vezes, de muitas maneiras, "quem sois vós para questionar a sabedoria dos desígnios de Deus?" Depois do século XX tudo se questiona. Tudo se pergunta. Tudo se quer saber. É nesta falta de existencialismo desassombrado que o livro mostra a sua idade.
Mas, tendo isto em conta, não é caso para desistir.





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