quarta-feira, maio 30, 2007

A minha greve geral

Eu, que sou escrava, não tenho carro. Trabalho longe e não posso ir trabalhar porque não tenho metro. Resultado, por especial favor, meus amos concederam que trocasse a folga pelo dia de hoje. Assim não perco um dia de vencimento que, acreditem, por ser miserável, conta muito.
Mas não é por isso que não faço greve. Miséria por miséria... É que a greve é para quem tem empregos a sério, que não são contratados por empresas de trabalho temporário (literalmente permanente), como é o meu caso. Nas empresas de trabalho temporário os contratos não são renovados ao fim de dois anos. Por isso agora é tempo de formiga, trabalhar para amealhar para quando não me renovarem o contrato.
Não trabalho hoje, trabalho no dia de folga. Ninguém vai contabilizar esta minha ausência, nos media, porque nós os precários somos invisíveis e nem para as greves contamos.
É este o meu país geral.

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Porque apoio Paulo Portas

Hoje, dois em um:

Educação: Portas protesta contra "sistema de ensino de faz-de-conta"

O líder do CDS-PP, Paulo Portas, protestou hoje contra a ausência de penalização dos erros ortográficos na prova de aferição de português, considerando que se vive "um sistema de ensino faz-de-conta".

"Através da comunicação social, o país tomou hoje conhecimento de que nas provas de aferição na disciplina de Português os erros de Português, de ortografia, não contam para efeitos de classificação. Gostava de deixar muito claro o protesto do CDS por este facto", afirmou Paulo Portas, em declarações aos jornalistas, à margem de uma visita à Feira do Livro de Lisboa.

O Diário de Notícias noticia hoje que os "erros de ortografia não contam para a avaliação", escrevendo que "erros de construção frásica, grafia ou de uso de convenções não são para descontar" nas referidas provas, informação entretanto desmentida "liminarmente" pelo Ministério da Educação.

O Gabinete de Avaliação Educacional justificou a ausência de penalização de erros ortográficos na parte das provas de aferição dedicada à interpretação de texto com a necessidade de avaliar separadamente diferentes competências da língua e traçar estratégias distintas.

"Já sabíamos que as provas de aferição não contam para a avaliação do aluno, agora ficámos a saber que os erros de português numa prova de português não contam para a classificação do aluno", criticou Portas.

"Estamos num sistema de ensino faz-de-conta, e isso do ponto de vista do CDS é inaceitável", acrescentou.

Para o líder do CDS-PP, "há verbos proibidos" entre os "ideólogos do Ministério da Educação".

"O verbo estudar é disfarçado, o verbo examinar é disfarçado, o verbo passar é disfarçado, o verbo chumbar desapareceu e agora errar também é indiferente", criticou Portas, garantindo que o CDS irá questionar o Ministério da Educação sobre esta matéria.

"Não é para isto que o contribuinte paga o sistema educativo", acrescentou.

Lusa



Impostos: Portas critica Estado por "entrar em casa das famílias sem bater à porta"

O líder do CDS-PP, Paulo Portas, criticou hoje a obrigatoriedade de as doações acima dos 500 euros terem de ser declaradas ao Fisco, acusando o Estado de querer "entrar em casa das famílias sem bater à porta".

"Eu não aceito que o Estado, através da administração fiscal, se ache no direito de, sem bater à porta, entrar na casa das famílias e ingerir na gestão financeira das famílias", criticou Paulo Portas, em declarações aos jornalistas, à margem de uma visita à Feira do Livro de Lisboa.

Devido às alterações introduzidas em 2006 ao Imposto de Selo, todos os contribuintes que façam doações superiores a 500 euros estão obrigados a pagar imposto de selo, entregando ao Fisco o modelo 1 do Imposto de Selo na altura da doação.

As doações entre pais e filhos, marido e mulher e avós e netos estão isentas do pagamento desse imposto, mas todos os contribuintes que façam doações superiores a 500 euros têm a obrigação de o declarar ao Fisco, sob pena de serem multados.

A confusão nesta matéria surgiu depois do primeiro-ministro ter dito no Parlamento, em Janeiro, que "não existem doações entre pais e filhos, nem entre cônjuges", sugerindo que as mesadas que os pais dão aos filhos não têm de ser declaradas às Finanças.

"Fizemos a pergunta pertinente ao primeiro-ministro e lembrar-se-ão, os que assistiram ao debate, que o primeiro-ministro dizia que era fantasia nossa. Afinal, o primeiro-ministro não estava exactamente dentro do assunto", referiu Portas.

Depois de um requerimento feito por duas deputadas socialistas ao Ministério das Finanças a pedir esclarecimentos sobre este assunto, o gabinete de Teixeira dos Santos reafirmou segunda-feira a obrigação de declaração em situações de doações superiores a 500 euros entre pais e filhos, mas esclareceu que as mesadas decorrem do dever do poder paternal e não são por isso consideradas doações para efeitos fiscais.

No entanto, o líder do CDS-PP deu alguns exemplos de situações que implicam a declaração de uma doação ao Fisco, e que classificou de "absurdas".

"Por exemplo, um pai que dá um prémio a um filho porque ele passou de ano (...), um avô que paga alguns dos estudos do seu neto (...), um presente de casamento", enumerou.

"Para os socialistas o Estado pode entrar em casa das pessoas, para nós o Estado fica à porta, e isso é uma separação absolutamente fundamental", defendeu Paulo Portas.

O líder do CDS-PP salientou que foi por influência do seu partido que terminou o imposto sucessório entre cônjuges, descendentes e ascendentes.

"Essa foi uma das marcas que o CDS conseguiu levar para o Estado, maior respeito pela família", disse.


"O Estado que se meta na sua vida e deixe a vida das famílias tranquilas", aconselhou Portas, garantindo que o CDS irá questionar o Ministério das Finanças sobre este tema.

Lusa



É A GUERRA!


Mas há mais. A 23 de Maio:

Tabaco: CDS-PP quer possibilidade de haver espaços para fumadores

O CDS-PP propôs hoje, no início da discussão na especialidade da Lei do Tabaco, que possam existir espaços classificados como para fumadores e outros para não-fumadores, à semelhança do que acontece em Espanha.

"Queremos a possibilidade de existirem espaços para fumadores e para não-fumadores (.) Não podemos atentar contra o direito de iniciativa privada de quem quer ter um espaço para fumadores", defendeu o deputado do CDS-PP Hélder Amaral, em declarações aos jornalistas no Parlamento.

"Deve caber a cada cidadão a escolha de ir a um restaurante para fumadores ou não-fumadores", acrescentou.


O deputado do CDS-PP considerou que esta alteração tornaria a lei "equilibrada, que protege direitos dos fumadores e não fumadores", salientando que é este o modelo legislativo em Espanha.

A proposta de lei do tabaco, aprovada na generalidade pela Assembleia da República a 03 de Maio, com os votos favoráveis do PS, do PSD e do CDS-PP, proíbe totalmente o fumo em restaurantes e bares com menos de 100 metros quadrados, permitindo a criação de um espaço para fumadores - nunca superior a 30 por cento da área total - nos estabelecimentos de maior dimensão.

O CDS-PP quer ainda que, em estabelecimentos onde o espaço de fumadores e não fumadores seja comum (com dimensão superior a 150 metros quadrados), seja atribuída uma quota de 50 por centro a cada uma das categorias.

"É do mais elementar bom senso que o espaço entre fumadores e não fumadores seja equilibrado", defendeu, considerando que, se tal não acontecer, os bares, restaurantes e discotecas situados perto da fronteira com Espanha poderão ser prejudicados.

O CDS-PP quer ainda uma redução das coimas para os infractores particulares, situando-as entre os 10 e os 150 euros.

A proposta de lei aprovada na generalidade prevê para quem insistir em fumar nos locais proibidos contra-ordenações que poderão ser punidas com coimas entre os 50 e os mil euros para o fumador.

O diploma começou a ser hoje discutido na especialidade, num grupo de trabalho a funcionar junto da Comissão parlamentar de Saúde.

Contactada pela Lusa, a presidente desta comissão, a socialista Maria Belém, disse esperar que a votação da lei na especialidade possa ocorrer a 20 de Junho.

Lusa


Há mais. Elas que venham. Assim até é fácil. Tenho a papinha toda feita.
Mais notícias aqui.

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terça-feira, maio 29, 2007

Hora Absurda

Descobri um blog de leitura obrigatória para quem gosta de perceber as coisas, tem cultura geral que baste e grande sentido de humor: Hora Abusurda VI.
Segundo um dos tratados do autor, o mundo divide-se em tios e bestas. Os tios são poucos. As bestas são os outros.

É certo que o pacto de Bolonha já reduziu a licenciatura para três anos, mas muito há que caminhar ainda até que as bestas possam também fazer as suas licenciaturas por fax, e não precisem andar a gastar o dinheiro dos progenitores durante anos, só para terem um título que lhes garanta emprego num qualquer call center ou num supermercado, ou ainda, caso tenham sorte, como trabalhadores da FNAC, onde ao menos podem ter acesso aos livros.
Já viram como a mão-de-obra iria embaratecer se as licenciaturas fossem feitas por fax ou até mesmo online?


Aconselho também a leitura do tratado paralelo "Das Tinturra".

Neste momento só conheço um tio que está preso, o coitado do tio Valle e Azevedo, e só porque comprou um botinho de borracha com dinheiro do Benfica. Que eu saiba ele não violou ninguém nem roubou dinheiro como os donos dos bancos. Felizmente agora os tios já fizeram uma lei que permite roubar quantias até quase cem euros de tintura a cada besta, sem estar a cometer crime algum. (...)
Resumindo, os tios estão, para já, a salvo das bestas porque estas andam desorientadas que nem baratas tontas, sem saber já em quem acreditar ou não, e têm razão em não acreditar em nenhum tio porque nenhum deles dá um ponto sem nó, e quando dá um nó tem a lei do seu lado e os advogados merdiáticos que os ajudam a desfazer o nó. De resto, podem dormir descansados porque as forças policiais, os securitas e, em último caso, os militares, saberão defendê-los das bestas porque as bestas foram feitas só, e exclusivamente, para trabalhar para o bem dos tios.


Mas isto é como tudo, vou ter de entrar em saudável altercação. Diz o autor em certo passo:

Os tios Marx e Engels julgavam – aliás, como todas as bestas julgam – que já se atingira no tempo deles o estádio final da revolução que as máquinas provocaram na vida das bestas. Deste modo, as bestas operárias necessárias para trabalhar nas fábricas teriam um grau mínimo de competências porque aquilo que tinham que fazer era tão simples que qualquer besta seria capaz de o fazer. Isso ficou bem ilustrado no filme do Charlot, Tempos Modernos. Este filme devia fazer parte dos curricula de todas as escolas do país, não só para mostrar aos alunos, como também para que os professores o vissem e se consciencializassem que a robotização precisa de bestas ainda mais burras do que as da industrialização tayloriana. Se uma besta que trabalha numa linha de montagem tem que saber executar uma pequena tarefa, uma besta robotizada pode ser instruída numa hora. Tomemos como exemplo o trabalho num call center, destinado a bestas licenciadas, e digam-me lá se aprender a dizer “Bom dia, daqui fala a Marta, em que posso ajudá-lo?” precisa de grandes preparações. O mais difícil é ajudar, mas já ninguém espera ajuda dos call centers e contenta-se com dois dedos de conversa e, sabe-se lá…


Discordo! Discordo completamente! Só há duas profissões mais difíceis que operador de call center, e são elas, por ordem de dificuldade: ministro e primeiro-ministro. Os operadores de call center são ainda os que mentem menos dos três, razão pela qual auferem menos rendimento, o que é perfeitamente justo. O rendimento tem de ser proporcional ao grau de mestria do mentiroso, com ou sem diploma.

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domingo, maio 27, 2007

Dá que pensar

Em seguida transcrevo um excerto de um diálogo do filme The Crooked E: The Unshredded Truth About Enron que passou recentemente na televisão, e que achei tão interessante que me dei ao trabalho de reproduzir. Trata-se de um diálogo em que um administrador da Enron explica a um jovem recentemente contratado como se processava o esquema Enron. Quem quiser ver alguns paralelos com outras situações dentro de casa, esteja à vontade.

"- A Enron tem muitos vermos, Cruver. A Enron tem milhões e milhões de vermes.

- Mas ainda há três semanas a Enron era invencível, e agora enfrenta falência, como é que isso aconteceu?

- É a pergunta dos 25 milhões, não é? De quem é a culpa? Obviamente da gestão da Enron, uns sacanas gananciosos. Cobrávamos belos bónus baseados em lucros falsos. Vendíamos as nossas acções quando dizíamos a todos para comprar. Por uns míseros 52 milhões de dólares por ano a Enron comprou a Arthur Anderson e tudo o mais que fosse preciso. A Direcção? Não queria saber o que faziam as chefias desde que o preço das acções continuasse a subir. E todos tinham parte naquilo: os bancos, as seguradoras, as corretoras, os analistas, os media, os políticos, todos nos apoiavam das barreiras. 'Vai, Enron, vai! Sobe o preço das acções!' Alan Greenspan chamava-lhe a 'exuberância irracional'. Eu chamo-lhe a boa da ganância. Certo, vamos para o estrangeiro construir centrais eléctricas. Índia, Guatemala, Brasil, República do sei lá de quê... Nós íamos, negociávamos as ofertas, fazíamos acordos, embolsávamos os nossos lucros e recebíamos os nossos bónus. Só existia um problema. Na Enron ninguém sabia o que estava a fazer. Foi a globalização da estupidez. Foi esse o verdadeiro método da Enron.

- Mas eu não compreendo. A Enron reinou em Harvard, Goldman Sachs, no New York Times, no Wall Street Journal...

- Vou contar-te uma história, Cruver. San Juan, Porto Rico. Instalámos quilómetros de oleodutos através de uma subsidiária. Fizemos um trabalho miserável, claro. Os canos têm fugas. Apresento o problema à gestão...

- O que aconteceu?

- Quebrei a regra da Enron. Nada de más notícias. Nada de más notícias, nunca. Transferiram o meu coiro para o outro lado do mundo. Um ano depois do meu relatório, um oleoduto rachado provoca uma explosão de gás. 80 pessoas feridas, 33 mortos. Os bónus foram pagos a tempo. Eu descontei o meu cheque. O sistema era corrupto, quase desde o início. Foi criado para enriquecer pessoas, as pessoas certas, com base no preço das acções. Ganhos reais e lucros reais para a empresa era uma consideração secundária. Bastava manter o preço das acções bem alto, pagar aos auditores, subornar os políticos, e encantar os media e Wall Street. Manter a mentira, bastava manter a mentira. Os bónus e as opções de compra não deixariam de chegar. De quem é a culpa? Minha. A culpa foi minha e de outros como eu. Vigaristas reles e imorais que o Lay e o Skilling não tinham problemas em recrutar das altas patentes militares, da escola de Gestão de Harvard, da escola de Economia de Londres, ou da Arthur Anderson. Os melhores dos melhores, Cruver. Somos os melhores e os mais espertos. Somos os maus, os criminosos. E não penses que é só esta empresa. Há centenas, milhares de Enrons por aí, a falsear a contabilidade, a inflaccionar os lucros, a esconder a dívida, a comprar a fiscalização."


Diria mesmo mais: até há por aí países assim.

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"Coisa Ruim" (2006)




Amante que sou de filmes de terror, é sempre com grande expectativa que assisto às tentativas nacionais. "Coisa Ruim" (realizado por Tiago Guedes e Frederico Serra e escrito por Rodrigo Guedes de Carvalho) tem bons momentos, muitos e interessantes, e dá a entender que tem asas para levantar voo a qualquer momento. Uma família "bem", de Lisboa, muda-se para uma casa de campo no norte, numa aldeia fortemente supersticiosa onde se acredita em maldições, lobisomens e mafarricos em geral. A consciência colectiva da pequena comunidade acusa-os de os seus antepassados não terem evitado o massacre de uma pobre família da terra às mãos dos poderosos desse tempo, de modo que o único remédio para apaziguar os espíritos errantes é a penitência e o terço.
O enredo tem tudo para fazer deste o primeiro filme de terror português a sério ("I'll See You In My Dreams" é mais um video clip com zombies do que outra coisa), mas nada acontece excepto uns abanões na mobília e umas correntes de ar. Era preciso mais. Era preciso terror físico ("o monstro horrendo", como em "Aliens") ou psicológico (a revelação perturbadora, como em "os Outros", susceptível de tirar o sono a muito gente). Ou ambos, como no "Exorcista", filme que não por acaso é considerado por muita gente o melhor filme de terror de todos os tempos. Mas em "Coisa Ruim" tudo se dilui na sugestão, nas conversas filosóficas de professor de liceu entre os crentes e os cépticos, e o próprio final não se percebe: interpreta-se. Isto é muito interessante para os filmes pretenciosos que caracterizam o nosso velho continente mas falha redondamente quando se mexe no terror.
O filme é um pouco como o país em que se passa a história. Nada de facto acontece, até os fantasmas são serenos como o povo, até do medo se tem medo e se tem medo de fazer medo. E como um filme de terror não é um documentário antropológico mas o filme vale mais por isso do que outra coisa...

13 em 20

PS: Na emissão do filme a que eu assisti, na RTP1, a imagens sofreu imensas falhas de natureza informática. Esperamos que o filme não tenha realmente esses erros, mas passar uma cópia digital de má qualidade não deixou de dar muito mau aspecto. A RTP1 anda a sacar files na candonga?... ;)

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Canção do momento

They say that you are born death
That in your solemn reverence
no evil words had passed
your innocent ears
But I know that you were a demon
Hoping to torture me till my screams
Were loud enough for you to hear

YOUR FACE, YOUR FACE, YOUR FACE

Guilty of filth I share
in your pleasure
Guilty of filth

No I shan't refuse your bed
The age of innocence
Has abandoned me for a while
And O' the pain you will cause me
Can't compare with the bliss
of knowing your murderous smile

YOUR FACE, YOUR FACE, YOUR FACE

Guilty of filth I share
in your pleasure
Guilty of filth

Neither awake nor alive
in your bosom where I would kill
even myself
for the splendor of YOUR FACE
Guilty of filth


Christian Death, The Loving Face (letra no álbum "Jesus Points the Bone at You?")

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sábado, maio 26, 2007

Natural born leader



O que gostei e não gostei da semana política e o que não interessa sequer falar nem é mencionado.

Não gostei da entrevista de Helena Roseta. Pareceu-me demasiado vaga, demasiado empenhada em colaborar com os same old same old. Admito que já seja instinto pavloviano e que a senhora até esteja a ser honesta. Mas honesta, na política? Ainda vai ter de fazer muito para o provar. Palavrinhas não chegam.
A sua única sugestão concreta, de abrir um "livro de reclamações" sobre Lisboa, não me parece de uma candidata que conheça a cidade. Mas brincamos? Quer uma reclamação, senhora dona Helena Roseta? Aqui vai:

Lisboa está deserta!!!



Posso dizê-lo porque eu sou das poucas pessoas em idade produtiva e reprodutiva que moram de facto nas freguesias abandonadas da Lisboa antiga e que votam em Lisboa, e não em Sintra, nem em Almada, nem em Odivelas, nem naquela parte dos subúrbios que se estende para leste da Portela e da qual só sei que é mais uma fonte de poluição automobilística na direcção da cidade.
Porque é que Lisboa está deserta?! Porque as casas são demasiado caras. Isto já se sabe há séculos, senhora dona Helena Roseta. Qualquer dia não há quem vote.
A situação é tão grave que nem os gatunos já aqui vêm roubar porque sabem que aqui só moram velhinhos na miséria e imigrantes brasileiros e ucranianos empacotados em quartos de casas podres. (Os chineses ainda não descobri onde moram, se calhar também dormem nas lojas quando os empregados brasileiros vão para os tais quartos.)
O que me leva à campanha de Telmo Correia do CDS-PP. Foi criticado por visitar um lar de velhinhos. Não gostei da crítica. Deve ter sido feita por gente dos subúrbios que não sabe que Lisboa são os velhinhos. Lisboa são os velhinhos que vivem na miséria, de reformas miseráveis de 200 euros ou menos, a viver em casas baratas porque são podres, gente que quase já não se pode mexer, gente que se arrasta para as compras que já não pode carregar, gente que não vai ao Carrefour nem ao Freeport, gente que consumisticamente não interessa, gente que está velha e abandonada. Esta gente é que são os eleitores de Lisboa, da verdadeira Lisboa. O outro enganou-se. Lisboa é que o deserto, e sem aves migratórias. Sobrevivem alguns pombos e pardais às leis selvagens que os condenam à morte graças ao bom coração de boa gente que não obedece à desumanidade.
Lisboa é também a morada dos sem abrigo. Será que votam? Será que ainda se interessam? Duvido. Pouco interessa a quem vive na rua e só pensa na próxima refeição que chega na carrinha da solidariedade. Gente que também não interessa nada. Gente que não tem internet. Será que lêem o Metro? Talvez. É de graça.

Gostei muito da anedota do professor que foi suspenso por proferir quiçá uma graçola contra alguém que tirou um diploma na Farinha Amparo. Fartei-me de rir! O que eu me ri! É ver agora a malta do tempo da ditadura a acordar e a abrir os olhinhos. Destas coisas é que eu gosto.

E no meio de toda esta desgraça, ainda há um político em que eu acredito. Gostei muito da entrevista do Paulo Portas. Gostei da ambição que revelou ao dizer que não quer um partido residual. Pode não o conseguir mas gosto de pessoas ousadas, que não têm medo de fazer má figura, que não têm medo de ir à luta e perder, porque só quem vai à luta é que vence.
Gostei quando Paulo Portas falou na discussão das famílias actuais, quando partiu a louça toda do partido velho e não só prometeu como ao dizê-lo já o estava a abrir. O Bloco de Esquerda que se cuide. Gostei quando Paulo Portas, como ministro da Defesa, acabou de vez com a vergonha do Serviço Militar Obrigatório, a grande bandeira de esquerda que, ironicamente, levou o punho da direita. Mas neste país ao contrário com total inversão de valores nada disto é de estranhar. Quem ainda tem bichinhos residuais dos pós-25 de Abril na cabeça é bom que os sacuda e deixe entrar o ar. O homem pode ser um político, e para se ser um político convêm não dizer toda a verdade e nada mais que a verdade, mas não estou a imaginar Paulo Portas a fazer um exame por fax. É daquelas coisas de anedotas que não passam pela cabeça de ninguém.
Gostei quando ele disse, umas 30 vezes, com uma inteligência de quem sabe o que faz "o José Sócrates já não é o mesmo de há dois anos". Ser o mesmo até é, o asco é que se tornou visível. Estarei a falar demais? Se calhar estou. Lá vou eu para a choldra. É preciso ter cuidado com a língua e a ponta dos dedos. É preciso votar no líder do partido que saiu do 25 de Abril com mais ligações à ditadura para lutar contra a ditadura.
Ainda têm que me provar que o homem não é honesto, porque este, ao contrário dos outros, tem obra feita e meritória, assim como têm os ministros que têm saído do CDS nos últimos tempos e que não precisam da política para o tacho.
Verdade seja dita, há que louvar outros dois homens. Ribeiro e Castro, porque esteve ali firme e digno quando era preciso e soube perder e tem sentido de missão, e, surpreendentemente para mim, Marques Mendes, de quem se diz tanto mal, e a quem tanto se achincalha, e nos últimos tempos tem sido o único gajo com eles no sítio. Isto só prova que as pessoas só valem alguma coisa quando são verdadeiras. É um bocado como os diplomas. Só que as pessoas valem mais.
Paulo Portas, diga-se o que se disser, é um natural born leader e o resto é conversa, homens de palha e papéis tão mal cheirosos como as negociatas que ali estão para tecer.

Não gostei desta notícia:

O número de trabalhadores portugueses em Espanha continua a aumentar, tendo crescido quase quatro por cento entre Janeiro e Abril, para mais de 75 mil, de acordo com dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Assuntos Sociais, informa a agência Lusa.

O aumento do número de portugueses foi mais elevado do que o aumento total do número de estrangeiros em Espanha, que cresceram cerca de 1,3 por cento atingindo um total de 1.947.908 pessoas. Representam já 12 por cento do número total de imigrantes provenientes da União Europeia (625.454) sendo a segunda maior comunidade da UE depois da Romena (cerca de 187 mil).

Em termos gerais, a comunidade portuguesa é já a quinta, depois das oriundas de Marrocos (276 mil), Equador (269 mil), Roménia (187 mil) e Colômbia (143 mil).


Que isto cale a boca de vez aos que dizem que os imigrantes vêm para cá "fazer o que os portugueses não querem fazer". Mentira de merda. Sempre foi e sempre será. Os portugueses vão para Espanha trabalhar nas obras porque ganham mais ou não arranjam outra coisa. Hoje dizia, um futuro desempregado da Delphi, que via perspectivas de emprego, mas não aqui. Na Espanha.
Escravos vêm de lá para cá, e vão de cá para lá. Acho que foi sempre por isso que me recusei a sair. Escravidão por escravidão, fico em Roma. Como dizia alguém cujos comentários noutro blogue muito prezo: "é a guerra".

Eu estou a fazer a minha. E é por isso que me vou bater ao lado do senhor da fotografia e vou fazer campanha descarada a torto e a direito e sempre que me apetecer sem ganhar nada com isso. Porque ainda há gente decente neste país. Posso não ter esperança, mas tenho ideais. Afinal a esperança não é a última a morrer. Os ideais ficam.

Over and out.

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quinta-feira, maio 17, 2007

Manifestação anti-touradas

Porque esta barbaridade tem que acabar:

Junte-se à ANIMAL em Lisboa na mais internacional manifestação anti-touradas de sempre em Portugal

17 de Maio (5.ª feira), às 19h, frente à Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa: Junte-se à ANIMAL e a 25 organizações anti-touradas vindas de todo o mundo a convite da ANIMAL para uma grande e inédita manifestação internacional anti-touradas na capital de Portugal

Numa iniciativa única da ANIMAL com o imprescindível apoio de Tyto Alba, promovida em colaboração com a League Against Cruel Sports e o Comité Anti-Touradas da Holanda e Bélgica (Comité Anti Stierenvechten), no próximo dia 17 de Maio, 5.ª feira, com início às 19h, Lisboa será palco da manifestação anti-touradas mais internacional de sempre, com a vinda a Portugal de dezenas de organizações e campanhistas anti-touradas de 11 países da América Latina e da Europa, e também de África do Sul e do Zimbabué. Da Venezuela, do Equador, do México, da vizinha Espanha, de França, da Bélgica, de Inglaterra, da Irlanda e da Holanda, várias organizações de defesa dos animais activas contra as touradas virão dar o seu apoio e a sua voz à luta contra as touradas em Portugal que a ANIMAL desenvolve.

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sexta-feira, maio 11, 2007

Eu e a vida nunca nos demos bem

Dei-lhe mais uma oportunidade mas as coisas estão a correr mal como é costume. Aos 35 anos, já devia saber o que esperar dessa grande puta.
Era só.

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quinta-feira, maio 10, 2007

Gótico, o que dizem de nós

In jornal "Metro", 6 de Maio de 2007, que transcrevo do papel para aqui para vosso prazer de leitura:


Foi você que pediu o regresso do gótico?

TENDÊNCIAS Adormecido durante quase vinte anos, o estilo gótico está de volta. Do rock para grandes multidões à Procuradoria-Geral da República portuguesa, passando pela irmã mais nova de uma estrela pop silicónica - o negrume, os ambientes taciturnos e as dores do crescimento já se fazem sentir. E não, isto não tem nada a ver com o mosteiro da Batalha nem com os Sisters of Mercy.


Ainda bem, porque este texto de Luís Guerra é um bocado alucinogénico, como verão no final. Para começar, quem esteve adormecido deve ter sido este senhor e fico-me por aqui.

Fala de seguida dos My Chemical Romance, "o porta-estandarte da nova 'vaga negra'", e do "realizador-cadáver" Tim Burton:

Burton alia um imaginário gótico não isento de humor a um fascínio pelos filmes de terror clássicos, como prova a homenagem ao desastrado Ed Wood.


É isto o "re-despertar" do movimento gótico? Tim burton? Que coisa tão nova.
Meu comentário: isto é mesmo de quem está por fora a falar do que não sabe. Enfim, é o jornalismo que temos.

Depois seguem-se as lolitas goth:

Do Japão chegam-nos os 'gadgets' mais inusitados, mas também tendências visuais cujo alcance ainda carece de explicação mais científica. (...) Trajes vitorianos, vestidos que se confundem com lingerie para matreirice de alcova, mas também artefactos aparentemente inocentes (ursinhos de peluche?! - não há um crucifixo, um morcego, nada?) fazem deste visual um sarilho tremendo para potenciais análises sociológicas.


Quando não se sabe nada do fundamental de uma coisa, fala-se do acessório.

A "irmã mais nova de uma estrela pop silicónica" refere-se a Ashlee, irmã de Jessica (não consta apelido), no artigo identificada como "estrela de 'reality-show' da MTV ('Newlyweds', sobre a sua vida de casada)", porque pinta o cabelo de preto e é aparentemente próxima de Robert Smith.

E depois é a cereja no topo do bolo:

O olhar da serpente Notabilizou-se pelo combate à corrupção mas foi afastada, em 2002, da Polícia Judiciária (...) Maria josé Morgado acompanha agora de perto as falcatruas da arbitragem e nem a tonalidade do apito (douradinho como um filete) consegue ofuscar o olhar desconfiado, matreiro e sagaz da magistrada de 55 anos (...) Nada, de facto, como um estojo de maquilhagem com a dose certa de sombra, rímel e lápis preto para impor respeito. "Moonspell", é favor começar a tirar notas.


Isto é de quem chuta prá veia. Não tenho mais comentários.

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DESAFIO: O declínio e a queda III

Na sequência do meu post de 3 de Maio:

DESAFIO:
Nem sempre foi assim ou estaremos todos muitos enganados? O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha? O que aconteceu à nação empreendedora que com mérito, coragem, saber e visão desbravou caminho pelos mares nunca dantes navegados, uma proeza semelhante às actuais viagens no espaço? O que aconteceu depois dos Descobrimentos que nos reduziu à medíocridade, à mesquinhez, à emigração, à subserviência?
Deixo aqui o desafio a toda a gente que tenha um blog dizer de sua opinião. Explicar o que aconteceu. Historiadores, cultos, incultos, gente com neurónios ou sem eles, é indiferente. Quero saber porque é que Portugal está a implodir.
Façam o vosso texto e avisem-me. Apontem-me para textos já escritos. EU QUERO SABER ISTO!

(...)

Quando e porque é que começou? Porque é que não se fala do assunto? Ao descobrir a origem, o momento chave em que tudo se transformou naquilo que os autores citados dizem, estamos mais perto da cura.

Fica o DESAFIO.
Precisam-se respostas.



Antes de transcrever as respostas, uma clarificação que eu julgar estar bem definida no desafio mas talvez não o esteja.

NÃO PROCURO MAIS DESCRIÇÕES DOS SINTOMAS CONHECIDOS E IDENTIFICADOS HÁ MAIS DE UM SÉCULO. PROCURO AS CAUSAS DO DECLÍNIO DE PORTUGAL. ATÉ AGORA NINGUÉM ME CONVENCEU.

Passemos, pois, a palavra aos intervenientes.


Comentário de Red:

Ora boas...
Desta vez ao contrário do 1º desafio lançado, não vou responder com versos metafóricos, que são mais interrogações que respostas.
Desta vez vou tentar um discurso mais coerente e de certa forma ciêntifico, para tal vou tentar mobilizar alguns dados empíricos.

Em primeiro lugar uma contextualização, para tal vou definir o que é o Global, não o global dos dicionários de sociologia, mas o Global que temos...
“Vejamos o que o global veio introduzir. No império do Global não há direitos adquiridos, há contratos...O lugar do indivíduo (do consumidor ou produtor) tem de ser conquistado, a pulso, no mercado, o seu desempenho tem de ser rentabilizado, a sua utilidade demonstrada. Há necessidade de uma contínua negociação, rentabilização, competição. As pessoas são dispensáveis, só interessam como função – de consumir ou de produzir – isto é, tornaram-se recursos: os recursos humanos!...Quem não é rentável não existe, não conta para o mundo global. Pode ser eliminado, pois não tem qualquer rentabilidade económica. Torna-se um peso para a sociedade globalizada e eficiente que, no limite, o despreza”1. isto é o global que temos só considera uma variável, a variável Capital, uma vez que a variável trabalho é local, “ A força do trabalho, só está globalizada num pequeno segmento da mesma, entre os trabalhadores de mais elevadas qualificações... (como analistas financeiros, engenheiros informáticos, publicitários de imagem ou estrelas desportivas)...O capital é global, o trabalho é local: nessa separação cria-se um vazio que torna ineficazes os processos de regulação e controle que se criaram na sociedade industrial”2 o que isto significa então em termos práticos? ora vejamos o que nos diz Casttels “...a produção de bens e serviços está globalmente articulada, em torno de um núcleo de 65 000 empresas multinacionais que, apesar de apenas empregarem uns 200 milhões de trabalhadores (há 3 000 milhões de trabalhadores no mundo), representam 40% do produto bruto mundial e 75% do comércio internacional. O comércio externo é pois a vida ou morte das economias, mas representa sobretudo a internacionalização da produção.”3 isto significa em termos práticos o seguinte. O conceito de globalização remete-nos de um ponto de vista económico, para a abertura dos mercados, isto é, um mercado global em que as fronteiras politicas e geográficas perdem importância, e em que os estados perdem gradualmente a influência politica sobre o mercado económico, numa lógica de causa efeito, isto reflecte-se numa concorrência também ela global, (onde interessa produzir bem, muito e barato).Num mercado global, interessa ás empresas reduzir custos de produção e aumentar o produto total, noutras palavras aumentar a produtividade, isto tem se reflectido numa fuga das empresas para mercados com uma mão de obra mais barata, e por vezes mais qualificada, consequentemente deparamos com um aumento do desemprego e precarização dos vínculos laborais, e aqui temos a VARIAVEL MAIS IMPORTANTE do caso especifico Português, a qualificação! senão vejamos em vários estudos realizados em Portugal a desqualificação emerge sempre como a variável mais importante no sentido de explicar os fenómenos que remetem este país para o pelotão de trás, (atenção que a influência das variáveis é facilmente demonstrável em termos estatísticos através de um conceito simples chamado o R de Pearson) mas não vou entrar em explicações de conceitos, correndo o risco de nunca mais sair daqui, de facto vejamos, temos uma população em que mais de 50% dos nossos cidadãos apenas têm o ensino Primário, e vamos lá meter as culpas nos senhores do costume, o ESTADO NOVO, parece que estamos a usar uma frase feita, mas que não deixa de ser real, interessava ao estado uma população inculta, e 30 anos ainda é pouco para vencer este paradigma, fruto disto vivemos num país de inteligentes incultos, com elites rascas, e numa ideologia paternalista, ou seja alguém nos vais resolver os problemas , e esperamos que o estado tome conta de nós, quem tem ideias ou critica este paradigma é apelidado de radical ou de pertencer a uma qualquer contracultura, enfim fomos arrastados para este turbilhão da globalização ( que não é mais que a globalização do capital) ao invés de uma globalização cultural geral, sem estarmos minimamente preparados, com isto afirmo, a emergência das novas economias como a china Índia ou Brasil, só vai piorar este quadro já de si bem negro. Interessa-nos mudar as nossas elites, e os nossos paradigmas, se não podemos mudar este Global, então temos de mudar o país para que o mesmo se adapte. Parece-me é que já vamos tarde...


1-Caraça, João, in Prefácio, A sociedade em rede em Portugal, Campo das letras, p 9, Porto, 2005.

2-Casttels. Manuel, in Capitulo inicial, A sociedade em rede em Portugal, Campo das letras, p 22, Porto, 2005.

3-Idem, p 23.


Acho que a tua explicação está muito focada na actualidade e nos efeitos da globalização. Procuro causas mais antigas, as mesmas dos sintomas de que falava Eça de Queirós n'"Os Maias", muito antes dos chineses.
Cito-te de novo: "de facto vejamos, temos uma população em que mais de 50% dos nossos cidadãos apenas têm o ensino Primário, e vamos lá meter as culpas nos senhores do costume, o ESTADO NOVO, parece que estamos a usar uma frase feita, mas que não deixa de ser real, interessava ao estado uma população inculta, e 30 anos ainda é pouco para vencer este paradigma, fruto disto vivemos num país de inteligentes incultos, com elites rascas, e numa ideologia paternalista, ou seja alguém nos vais resolver os problemas , e esperamos que o estado tome conta de nós, quem tem ideias ou critica este paradigma é apelidado de radical ou de pertencer a uma qualquer contracultura," Tudo isto está em Portugal muito antes do Estado Novo.
Mais?...


Comentário de Goldmundo, em várias partes, por opção do próprio, e a nosso bem pela graça de Deus:


Bem, tantas coisas para dizer. Vai ter de ser aos bocadinhos.

"O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha?"

Bem, não houve uma "nação determinada". No séc. XII, e nos anteriores desde que os romanos colapsaram, a questão era essencialmente militar. Coragem individual, espírito guerreiro, talvez fé e honra, que são as duas coisas que fazem com que sobreviver a todo o custo possa não ser sempre a opção a seguir. A inteligência é necessária, mas é a inteligência do lobo ou a do falcão. Ao povo, pedia-se que fosse povo: trabalhar nos campos, ter filhos, viver e esperar.

Quando surge aquilo a que agora chamamos capitalismo, ou comércio (em larga escala) as coisas tornam-se diferentes, muito diferentes. A honra do comerciante é diferente da honra do rei: trata-se de pagar a tempo e horas, de entregar a mercadoria a tempo e horas. Trata-se de cumprir contratos e não de cumprir regras morais. E aí aconteceu (não só a nós, também aos espanhóis) algo de dramático. Navegámos, e expulsámos os turcos da Índia, e uma vez um soldado português enfrentou sozinho, num bote, 22 navios de guerra do Sultão. Mas a certa altura isso não bastava.

- O D. Afonso Henriques não era "periférico" de coisa nenhuma. Quanto mais longe estivessem o Papa e o Rei de França e o Imperador menos gente ele tinha que o chateasse. Mas o comerciante de Lisboa no tempo dos Descobrimentos tem desvantagem (acesso ao crédito, acesso a mercados de matéria-primas, etc) face aos do centro-europa.

- A expulsão dos judeus (forçada por Espanha) não ajudou.



Segunda parte



Uma nota prévia ao comentário de Red: a ideia de que interessava ao Estado Novo uma população "inculta" é evidentemente um dos tristes mitos contemporâneos. A ver se nos entendemos: Portugal está repleto de escolas primárias e de liceus construídos nos anos 30/40/50 (aliás, com uma arquitectura perfeitamente reconhecível: "olha uma escola primária"). O que não interessava - mas é um assunto DIFERENTE - era a difusão das "ideologias de esquerda", como é óbvio. No entanto, ao contrário de agora, qualquer pessoa "urbana e culta" falava e lia duas ou três línguas estrangeiras, e o país (ou melhor, Lisboa, Porto e Coimbra)abarrotava de livros franceses e ingleses de todos os quadrantes.

Voltando ao assunto principal: o gap" entre Portugal e a Europa começou com o desenvolvimento do capitalismo. Não tivemos Revolução Industrial. Não tivemos dinastias burguesas de várias gerações, a trabalhar (ao modo burguês, isto é, como "empresários", mas a trabalhar) por sucessivas gerações e a acumular fortunas enormes.

As razões para isto são pouco conhecidas ainda (Pedro Brito, da Faculdade de Letras do Porto, é a única pessoa que conheço a estudar seriamente este ponto): tudo indica que, ao contrário da Europa do Norte, a preocupação de quem enriquecia era "afidalgar-se". Se conhecem o Minho (basta ver fotos de Viana e Ponte de Lima na net) vêem que está coberto de "solares" do século XVIII: os camponeses emigravam para o Brasil, faziam fortuna, voltavam para comerciar durante uns tempos e mal podiam faziam um casamento na nobreza, construiam um palácio... e passavam a viver de rendas agrícolas. Era bom enquanto durava. (era muito mal visto um "fidalgo" trabalhar, o que nunca aconteceu em Inglaterra, por exemplo).

Para quem goste de literatura "gótica" (a clássica, a dos anos 1750-1850), sugiro que vejam o que era a Espanha e Portugal aos olhos de ingleses e franceses: do lado de cá dos Pirinéus entravam numa espécie de Transilvãnia Ocidental, com ciganos, igrejas em ruinas e campos por cultivar. Por isso, e não pelo Sol do Algarve, aqui estiveram Byron, Walpole (o inventor" do romance gótico) e vários outros. Foram eles que "fizeram" Sintra, que era um ermo com um castelo arruinado.

(continuo)

O terramoto não ajudou (mil palácios destruídos em Lisboa), e também não ajudou uma coisa pouco conhecida: poucos anos depois do terramoto houve um misterioso incêndio na Alfandega de Lisboa, que servia de "registo central" aos documentos que provavam dividas dos comerciantes (de exportação/importação): grandes empresas arruinaram-se aí.

Mas não é o terramoto (nem as invasões francesas) a causa, as coisas vêm mais de trás.

Pensem em filmes como o "Patriota" com o Mel Gibson, ou filmes do tempo de Napoleão: aqueles grandes exércitos de infantaria, linha após linha de soldados profissionais com espingardas e baionetas: Portugal teve de importar generais para os organizar, como agora importa espanhóis para "gestores de topo". Não aprender o capitalismo e não ter a revolução burguesa significa não aprender organização, não aprender planeamento. Fazer as coisas ao modo de cada um, como o artesão da Idade Média. Nos últimos 300 anos, isso tornou-se cada vez mais um desastre.

Suponho que o facto de termos sido um país católico não ajudou: ao contrário das igrejas "protestantes", o clero católico desconfiava do progresso, dos "estrangeiros", das novas ideias. Cada vez mais as nossas coisas foram actos isolados e "heróicos", como a travessia aérea do Gago Coutinho, a travessia de África de Serpa Pinto, os romances do Eça ou a poesia do Pessoa: uma coisa de um só, que não deixa rasto nem escola.

O quotidiano continuou aldeão, e por isso continuou ineficaz: o compadrio, que agora nos horroriza no topo do Estado, foi inventado no adro das aldeias. Faz-se assim porque "sempre se fez", trabalha-se com este porque é primo de um amigo. Uma vez assisti a um telefonema feito directamente para o Presidente da República para "livrar um rapaz da tropa, a mãe é do meu tempo e boa moça, viúva coitada": e o rapaz livrou-se, sim. Os tribunais nunca funcionaram (funcionaram nos países em que os ricos precisavam que eles funcionassem para cobrar dívidas ou para impedir o Estado de fazer leis absurdas: aqui repercutia-se a dívida no seguinte ou falava-se com Lisboa para alguém "fechar os olhos".

Isso significa que o 25 de Abril, passado o folclore inicial, foi o desabar de um capitalismo em fase cancerosa sobre um país do séc. XVI. E ainda por cima, quando (anos 80) a ideologia exportada pelos americanos era a de que o capitalismo ia trazer consigo a paz da democracia. Tentou-se isso na Rússia, também.

O problema seguinte é o de perceber porque é que a Espanha triunfou quando nós falhámos. Também teve o Franco, e teve uma guerra civil que durou 3 anos. Também era um país de fidalgos e ciganos. E agora prepara-se para ultrapassar a Inglaterra em poder económico.

É curioso que Sócrates nos peça para olhar a Finlândia, com a Espanha mesmo ao lado. Se eu fosse o autor do Portugal Profundo, talvez sugerisse duas ou três explicações :)

(a continuar, acho...)



Obrigada pela paciência em escrever isto tudo, Goldmundo. Valerá a pena se a alma não é pequena (e a nossa não deve ser porque insistimos em escarafunchar a madeira podre das fundações da casa).

As tuas questões põem-me mais perguntas.
Cito e provoco.
A inteligência é necessária, mas é a inteligência do lobo ou a do falcão. Ao povo, pedia-se que fosse povo: trabalhar nos campos, ter filhos, viver e esperar.
Também o mesmo era pedido a todos os povos europeus, ou não?...

- A expulsão dos judeus (forçada por Espanha) não ajudou.
E todavia, mesmo sem judeus, a Espanha fez e faz coisas enquanto Portugal definhava e definha. Muitas culpas foram atribuídas aos judeus; não comeces também tu a desculpar-te com a falta deles. ;)

Voltando ao assunto principal: o gap" entre Portugal e a Europa começou com o desenvolvimento do capitalismo. Não tivemos Revolução Industrial. Não tivemos dinastias burguesas de várias gerações, a trabalhar (ao modo burguês, isto é, como "empresários", mas a trabalhar) por sucessivas gerações e a acumular fortunas enormes.

Agora sim, se não estamos no osso, estamos perto dele.

Não aprender o capitalismo e não ter a revolução burguesa significa não aprender organização, não aprender planeamento. Fazer as coisas ao modo de cada um, como o artesão da Idade Média. Nos últimos 300 anos, isso tornou-se cada vez mais um desastre.
Eis uma boa questão. O que faltou ou o que falhou para não percebermos com o exemplo dos outros quando até os intelectuais do século XIX já o apontavam? Somos burros? Não somos burros. O que trava, então, as mentes nacionais?
(Estamos a chegar perto.)


Suponho que o facto de termos sido um país católico não ajudou: ao contrário das igrejas "protestantes", o clero católico desconfiava do progresso, dos "estrangeiros", das novas ideias.
O exemplo de Espanha também faz deste um ponto mudo.

Aliás, o exemplo da Espanha faz-nos pensar muito e muito. Mas a Espanha não é o inimigo. O inimigo é a falta de reflexão sobre a nossa própria estagnação.

QUE CONTINUE O DEBATE!

MEXAM-SE! ESPALHEM-NO!

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quarta-feira, maio 09, 2007

DESAFIO: O declínio e a queda II

Na sequência do meu post de 3 de Maio:

DESAFIO:
Nem sempre foi assim ou estaremos todos muitos enganados? O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha? O que aconteceu à nação empreendedora que com mérito, coragem, saber e visão desbravou caminho pelos mares nunca dantes navegados, uma proeza semelhante às actuais viagens no espaço? O que aconteceu depois dos Descobrimentos que nos reduziu à medíocridade, à mesquinhez, à emigração, à subserviência?
Deixo aqui o desafio a toda a gente que tenha um blog dizer de sua opinião. Explicar o que aconteceu. Historiadores, cultos, incultos, gente com neurónios ou sem eles, é indiferente. Quero saber porque é que Portugal está a implodir.
Façam o vosso texto e avisem-me. Apontem-me para textos já escritos. EU QUERO SABER ISTO!

(...)

Quando e porque é que começou? Porque é que não se fala do assunto? Ao descobrir a origem, o momento chave em que tudo se transformou naquilo que os autores citados dizem, estamos mais perto da cura.

Fica o DESAFIO.
Precisam-se respostas.


Transcrevo o comentário de Luna da caixa de comentários do blog Do Portugal Profundo:

Gotika lançou um DESAFIO sobre uma questão muito pertinente: "porque dorme Portugal?"
Pouca gente hoje em dia medita sobre este assunto talvez pq os intelectuais passaram a estar filiados nos partidos, perdendo a isenção da critica, ou porque não têm também qualquer peso na sociedade, sendo olhados até com desdém.
A consciência e o orgulho nacionais foram morrendo aos poucos. Só por ocasião dos campeonatos de futebol internacionais ou em outras situações muito pontuais ,como a inauguração da Expo 98, vem ao de cima essa vertente..De uma forma geral os Portugueses não gostam de o ser mas, qualquer ser humano consciente, deve gostar do seu País e sentir orgulho nele.
Hoje o que conta são os sinais exteriores de riqueza e a aparência , o interior é perfeitamente secundarizado. Amedrontam-nos constantemente com a infindável crise , pedem que nos sacrifiquemos ao máximo e eles no poder não se coibem de nada e ficam cada vez mais ricos à custa do povo . Alguns Portugueses querem a todo o custo ser “modernos” e ser moderno é únicamente absorver de forma insidiosa as taras e manias americanas ao mesmo tempo que se detesta George W.Bush!É a globalização
Lá fora sente-se que os povos tem orgulho na sua cultura, nas suas origens que permanentemente valorizam.A nossa cultura foi definhando porque ninguém a estimulou..O que vigora é o chico espertismo.Os valores morais andam aos trambolhões.
Portugal está realmente doente e corre o risco de se descaracterizar totalmente , acabando mesmo por deixar de existir como nação. Para isso muito têm contribuido os politicos. Quem vai hoje para a politica? Salvo raras e honrosas excepções são as pessoas ambiciosas ,frustradas, imaturas e mal resolvidas que querem a todo o custo ter poder e mordomias para se sentirem gente .O povo, para o qual dizem trabalhar, só serve para votar, porque de resto é perfeitamente desprezado. Acabam por fazer ao povo aquilo que sempre sentiram na pele.. Querem resolver a vidinha deles, dos seus familiares e amigos e como não têm principios entram em todas as jogadas que lhes faça aumentar o património. Corrompem e são corrompidos facilmente porque os valores não entram em linha de conta e, para culminar, saem sempre ilesos porque a impunidade está instalada. Os escândalos sucedem-se a um ritmo vertiginoso e uma boa parte da população alheia-se de tudo propositadamente porque não se quer incomodar.
Esquerda, direita? Tudo está desfigurado..veja-se como Socrates..que tem muito pouca cultura politica confunde socialismo com politicas de direita pura!!!
Nós , o povo, olhamos em redor e não temos referências , não temos lideres confiáveis e isso é responsável pelo desânimo que está entranhado em muitos de nós.As pessoas passam a olhar para si próprios exclusivamente, ficam cada vez mais egocentricas e tornam-se socialmente apáticas.
Há gente de muito valor em Portugal e, como diz Gotika ,há muitos Portugueses que se destacam no estrangeiro.Mas o que acontece então? Aqui não se dá o devido valor à prata da casa. Há invejas, complexos , pouco estimulo,a amizade deixou de ter um papel essencial na vida das pessoas. Usa-se, manipula-se e depois joga-se fora..é tudo descartável.
Por isso as pessoas partem como sempre fizeram e continuarão a fazer porque Portugal não tem futuro.
Mudar as mentalidades é fundamental e que haja alguém que estude todos estes fenómenos e se criem debates para se tentar melhor a qualidade das pessoas e engrandecer Portugal.
Luna



Continuam a precisar-se de respostas. Fica o DESAFIO.

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sexta-feira, maio 04, 2007

Canção do momento

As if by magic
I have been spared
This stagnant atmosphere has dissolved into
A nebulous vacuum

I am bathed in aromatic perfume
Dream like figures emanate love
And swoon at my glance of seduction

By what magic has fate allowed such bliss?
Insanity you are so sweet.


Raw War (excerto)
Christian Death, "The Scriptures" 1987

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quinta-feira, maio 03, 2007

DESAFIO: O declínio e a queda

Nestes últimos dias tenho pensado muito no declínio e queda de Portugal.
Vou deixar três exemplos de como vários autores já tinha percebido tudo há muito tempo:


Lido recentemente no blog Braganza Mothers:

"Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não."

Jorge de Sena "A Portugal"



Lido recentemente em vários blogs:

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro [.]

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. [.]

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;

Dois partidos [.] sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, [.] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896


A que junto daqui:

"Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade."

Eça de Queiroz, in 'Distrito de Évora (1867)


DESAFIO:
Nem sempre foi assim ou estaremos todos muitos enganados? O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha? O que aconteceu à nação empreendedora que com mérito, coragem, saber e visão desbravou caminho pelos mares nunca dantes navegados, uma proeza semelhante às actuais viagens no espaço? O que aconteceu depois dos Descobrimentos que nos reduziu à medíocridade, à mesquinhez, à emigração, à subserviência?
Deixo aqui o desafio a toda a gente que tenha um blog dizer de sua opinião. Explicar o que aconteceu. Historiadores, cultos, incultos, gente com neurónios ou sem eles, é indiferente. Quero saber porque é que Portugal está a implodir.
Façam o vosso texto e avisem-me. Apontem-me para textos já escritos. EU QUERO SABER ISTO!


Eu começo. Os Descobrimentos foram a grande glória e o começo do fim. Como Roma e todos os grandes impérios, é no seu auge que se deve procurar as origens do declínio. As riquezas conquistadas serviram para comprar à Europa os produtos de subsistência em vez de os produzir, num movimento que, aprendi na escola, ficou conhecido por "política de transporte". Transporte do ouro de cá para lá. Regozijo do lado de lá, lazer e preguiça do lado de cá. Portugal tornou-se vaidoso e tolo, tão vaidoso e tolo que D. Sebastião decide empreender a primeira cruzada do pato-bravismo (o puto era uma espécie de street racer viciado em tuning de armaduras) com a consequente perda da independência.
Não culpo os espanhóis. Fizeram o que qualquer nação com juízo faria: aproveitar-se de uma nação que perdera o tino. E não se pode culpar os espanhóis eternamente. Já passou muita água debaixo da ponte, meus amigos.
A partir da recuperação da independência, as únicas criaturas que deixaram obra feita foram ditadores mais ou menos sanguinários. Marquês de Pombal e Salazar. Eis quem conseguiu pôr "isto" nos eixos se bem que pela força e sem democracia. Entretanto, lá fora, inventava-se o parlamento, e a monarquia constitucional, e fazia-se a revolução industrial, e rebentavam os sindicatos, e morria-se por uma causa se fosse preciso. Portugal dormia, nem sempre à sombra da bananeira. Muitas vezes ao frio. Mas dormia.
Porque dorme Portugal, é a pergunta? Onde começou este rastilho de corrupção e mau cheiro do qual o Brasil é a nossa vergonhosa obra prima? Entretanto a Europa cresceu. A Espanha cresceu. Até países de Leste nos passaram à frente. Portugal definha e envergonha-se. O que quer que tenha acontecido foi ditado após a ocupação espanhola pós sebastianista e nunca mais se recuperou a Pátria. No estrangeiro, os portugueses brilham tanto ou mais do que os nativos mas não têm hipóteses na sua terra. Que pátria é esta que desdenha o seu melhor e escolhe para a governar o seu pior, quer seja democraticamente ou através de um ditador?
Quando e porque é que começou? Porque é que não se fala do assunto? Ao descobrir a origem, o momento chave em que tudo se transformou naquilo que os autores citados dizem, estamos mais perto da cura.

Fica o DESAFIO.
Precisam-se respostas.

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