quinta-feira, janeiro 25, 2007

Mind reading

Sinto que as pessoas pensam que não sei o que pensam de mim, mas estão muito enganadas. O que elas pensam é aquilo que eu sei que pensam. (Qualquer escritor de meia tigela consegue prever o que as personagens da história vão dizer.)
De vez em quando provam-me, sem querer, que leio os seus pensamentos, e por isso mesmo hoje partiu-se-me o coração mais um bocadinho.

Eh bien.

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Mais vale ver o filme

"Salem's Lot", de Stephen King, relata a chegada de um vampiro muito antigo à pacata cidade de Salem's Lot e a consequente infecção vampiresca que em espaço de poucos dias transforma todas as casas e respectivas famílias - pai, mãe e filhos bebés - em covis de vampiro. Desta sorte só escapa um garoto que lê histórias de terror, um escritor e um padre. Quanto ao padre, não tenho bem a certeza se escapa. Terá talvez, na sua fuga da igreja onde já não podia fisicamente entrar, inciado um novo foco de de vampirismo para onde os passos o levaram. O seu destino é de todos o mais misterioso.
Do ponto de vista literário, deve ser a primeira vez que o digo aqui: mais vale ver o filme. Este ainda não vi mas não custará muito que supere o livro, e podem-se esperar os sustos e saltos na cadeira com que tão mal o cinema americano tem transformado o terror num filme de "screams".
Do ponto de vista do vampirismo em geral, que é o que interessa a nós, "vampire lovers of the world", a disseminação vampírica é inconsistente. Stephen King segue o cânone medieval em que a vítima se transforma também em vampiro. Ora, se assim fosse, desde esses tempos até hoje, e com tanta gente mordida, já éramos todos vampiros. (Talvez sejamos e não saibamos.) Tudo o que não tem lógica, numa história de terror, perde grande parte do potencial (se não todo) do seu objectivo último que é meter medo. É para isso que servem as histórias de terror.
Mas Stephen King não quis ser original. Se Tolkien reescreveu o Velho Testamento, o senhor preferiu reescrever "Drácula" à americana... e não saiu nada de jeito. No mínimo, e para que o mito fosse respeitado, ao eliminar o vampiro principal, o patriarca, a fonte, todos os outros se desfariam em pó. Não acontecendo iso, e não sendo observada a regra de que a vítima tem de beber o sangue do vampiro que a transforma (como em Bram Stoker ou Anne Rice) é como digo: por esta altura até o Van Helsing seria um vampiro.
Filosofia? Sim, há. Um dos que se safam, mas porque foge a tempo, é o sheriff da cidade, que com a sua sabedoria de muitos anos de observação se apercebe desde o princípio do que está a acontecer e justifica o lavar de mãos com a sua decepção geral perante o ser humano: "Acho que eles vão gostar de ser vampiros. A cidade já estava morta. Sim, eles vão apanhar-lhe o jeito. Mas eu não. Eu vou-me embora."
Há sempre quem o faça, caro Gillespie.


Outro livro que li recentemente foi "Os Filhos dos Homens" ("Children of Men") de P.D. James, e tão fraquinha é a literatura que mais uma vez... mais vale ver o filme. Não que a ideia original não seja boa, um futuro próximo em que o ser humano perdeu a capacidade de se reproduzir e que por isso está condenado a uma lenta extinção, mas a história (passada em Inglaterra) perde-se demais em chás das cinco, encontros em museus e visitas nostálgicas a igrejolas decrépitas. Dizem que o filme tem mais acção. Mesnos acção seria impossível, excepto, talvez, se fosse Manoel de Oliveira a realizar.
Filosofia? Eu cá, se fosse Deus, e se quisesse acabar com esta merda toda, e acho que há razões para isso, era mesmo assim que o fazia. Um apocalipse soft, sem massacres nem anjos de espadas vingadoras, fazia mesmo o meu género de apocalipse. O meu tipo preferido de Ómega.

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sexta-feira, janeiro 19, 2007

Não estou feliz

Não estou feliz. Sento-me na cama, antes de me deitar, e tento mentalizar-me de que o importante é cumprir as responsabilidades. O importante é garantir um tecto, é este conforto, a comida e o calor e a água quente, e as roupas e as contas todas pagas sem o garrote no pescoço.
Não estou feliz. A situação dos últimos tempos obrigou-me a afastar de pessoas de quem não me queria afastar. Como tenho saudades deles. Muito provavelmente algumas separações foram para sempre.
Não, não estou feliz.

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quarta-feira, janeiro 17, 2007

Espelho distorcido

Havia uma ambição secreta por trás deste blog. A mesma que sempre almejei toda a vida: ser compreendida. Inconscientemente, o que eu esperava deste blog era que as pessoas me conhecessem, através da sua leitura, e que algumas, até, me compreendessem.
Sim, sempre foi isso o que quis das pessoas: a compreensão. Não me interessa que gostem de mim mas exijo, como a mais importante afirmação do meu ser perante o mundo, que me compreendam.
Se ninguém me compreender é para mim exactamente o mesmo que estar completamente sozinha neste planeta.
Ser compreendida não me acontece muitas vezes na vida real. Esperava que acontecesse aqui, depois de anos a despir a alma para toda a gente que quisesse ler, através do intimismo que o anonimato permite e da efeito prolongado da palavra escrita. Mas não aconteceu.
Os leitores provaram sucessivamente que não me conhecem mas, mais importante do que isso, que não me compreendem. Durante algum tempo atribuí o facto ao fracasso pessoal de não me fazer entender, de não ser suficientemente clara. Mas depois cheguei à conclusão de que não por culpa minha, ou dos leitores, também não é possível através deste meio dar alguém a conhecer, muito menos ambicionar ser-se compreendido. Para isso seriam precisos mais pormenores, mais descrições do dia a dia, mais exposição. A simples defesa de valores morais e interacção intelectual não bastam.
A verdade é que há uma esfera de intimidade que reservo apenas e só aos amigos. Só para esses, talvez, os meus textos façam todo o sentido. Há uma razão para que exista no Live Journal a opção "friends only" em que só utilizadores seleccionados podem ler as entradas privadas "for friend's eyes only".

Enganei-me em relação a esta coisa. Também não é assim que vou ajudar os outros a compreender-me. A única coisa que ajuda os outros a compreender-me é a sua vontade de me compreender. E se esta não existir, é para mim exactamente como estar absolutamente sozinha no planeta.

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quarta-feira, janeiro 10, 2007

E depois também houve umas engraçadas...

...como esta:

8 de Fevereiro de 2004
Farto desta vida? Passe já para a outra!
Dedicava-me eu ao passatempo preferido dos fins de semana, calcorrear as páginas dos classificados de emprego, quando descubro este anúncio na página da Astrologia do Correio da Manhã, escrito em letras garrrafais:

ESTÁ FARTO DESTA VIDA?
Telefone ou envie SMS
Tlm.: 969 814 186

Aqui têm o contacto para onde poderão telefonar se estiverem fartos da vida.
Isto até me deu uma ideia empreendedora para um negócio de franchising.

Lojas Multi-S
Tudo para o seu suicídio

Está farto desta vida?
Nas nossas lojas encontrará tudo para o seu suicídio: cordas, lâminas, pistolas, balas, veneno, comprimidos tiro-e-queda!

Atendimento personalizado
As nossas simpáticas e competentes assistentes terão todo o prazer em encontrar para SI o melhor método para pôr termo à SUA vida. Porque cada caso é um caso. Sabemos que os clientes não são todos iguais.

Assistência técnica 24 horas
Por telefone: 700 000 666
Na internet: www.morteonline.pt

Serviço ao domicílio
Se não tiver coragem poderá requerer o serviço ao domicílio. Temos um vasto leque de profissionais estranguladores, estripadores, canibais, assassinos e carrascos afins, todos certifcados pelo IEFP, que se deslocarão a sua casa e o matarão sem que você precise de se incomodar e perder tempo em filas.*

* A Multi-S também fornece serviços religiosos e funerários. Peça informações às nossas assistentes!


E esta:

18 de Fevereiro de 2004
Jovem empresária de sucesso

Não há nada como ser optimista. Em vez de pensar em mim própria como licenciada desempregada a viver de biscates, agora sou jovem empresária de sucesso que trabalha por conta própria.

(Aviso aos leitores brasileiros: não é esse tipo de biscate)


E esta:

18 de Abril de 2004
AUSONIA quer saber...

(E agora, para aliviar o “doom and gloom” deste blog nos últimos tempos, e porque não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe, vamos a uma piadinha que ando para contar há uns meses:)

AUSONIA QUER SABER EM QUEM CONFIASTE A PRIMEIRA VEZ QUE TE VEIO O PERÍODO

(A resposta que faltava:)
Eu não confiei em ninguém. É segredo de Estado. Segredei pessoalmente e apenas ao Presidente da República. De mim não arrancam nada nem sob tortura!



E esta:

25 de Junho de 2004
Ainda MAIS justiça social nos transportes
(...)
- Boa tarde, eu queria o passe L, se faz favor.
- Agora a menina tem que trazer a declaração de rendimentos do último ano.
- Mas eu estou desempregada. Não tive rendimentos a declarar.
- Ah, então tem que ir às Finanças comprar o modelo 666/04, ir ao Centro de Emprego da sua área a confirmar que está inscrita, ir às Finanças carimbar e depois voltar cá.

Três dias depois...
- Boa tarde. Está aqui o modelo 666/04. Era o passe L.

No autocarro, o motorista:
- Pssst, onde é que a menina pensa que vai?
- Eu? Eu vou-me sentar.
- Sentar? Com um passe de desempregada? Não pode. Só pode viajar em pé.
- Como?!
- Os lugares sentados são só para os trabalhadores activos. Os desempregados vão em pé. E se protesta muito ainda vai no caixote do tejadilho com os reformados e os pensionistas!



E esta:

9 de Julho de 2004
O seu tamanho, por favor?
Fui a um velório. Desses velórios, à tradicional portuguesa, com as velhinhas a dizer "não somos nada na vida" e "já não sofre, coitadinha", que se arrasta pela noite dentro...
Bem, o essencial é que estava ali a fazer cara de enterro quando reparei que o caixão da defunta era mais pequeno do que o habitual. Comentei com os presentes que o caixão era pequeno. Disseram-me que a defunta era pequena e estava magrinha. Perguntei se havia vários tamanhos de caixões, e não é que há mesmo?!...
E eu a pensar que com a normalização da fruta e das embalagens da CEE, os caixões também eram normalizados...
Pois não são; há tamanhos. S, M, L, XL?...
E a cova, também é cavada à medida?
E o funeral, é pago ao quilo?



E esta:

27 de Setembro de 2005
Vende-se
Cérebro
(Feminino.) Em óptimo estado. Eficiência comprovada em Ciências Humanas, Línguas e Literaturas, Psicologia e similares. Excelente oportunidade para dondocas socialites que não têm conversa nem precisam de se levantar cedo.

Coração
Uma máquina! Venha experimentar um test drive.

Rins (2)
Em excelentes condições. Sem pedras. Distilação quase automática.

Fígado
Bastante kilometragem. Faço um desconto.

Pulmões (2)
Um bocadinho encardidos. Desconto na compra do par e oferta de um pacote de Xau para a lavagem.

Olhos (2)
Miopia no esquerdo, astigmatismo no direito. Em separado ou em conjunto. (Na compra dos dois, ofereço os óculos, no valor de 150 euros.)

Útero
A estrear!!!

Óvulos vários
Remessa de um por mês.

Bexiga
Oportunidade única! Pequena e prática, leve, fácil de transportar. Óptima para praia ou campo.

Garganta
Ainda tem as amígdalas!!!

Dentes
Preço especial pelo lote disponível ou melhor oferta caso a caso.

Medula óssea
À discrição.

Sangue
5 a 8 litros de sangue puro, não contaminado, imunizado contra todas as doenças comuns e algumas incomuns. Até se bebe do frasco!

Esqueleto
Preço do osso ao centímetro.

Vagina
Isso não vendo, vão-se foder.

Desconto pelo lote. Desmontagem grátis. Entrega ao domicílio.

*Super promoção!!! Na compra do lote, oferta de orgãos secundários para Faculdades de Medicina, canibais e similares.


E esta está muito inspirada mas é melhor ir ler na página própria:

Os alhos e as cebolas e a invencível armada

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A história deste blog

Em Dezembro de 2003, eu escrevia:

18 de Dezembro de 2003
Under reconstruction

Nunca pensei que um diário online, pessoal e intimista, tivesse algum interesse para os outros. Sempre pensei que fosse a curiosidade, e não o interesse, que levava as pessoas a ler sobre a vida dos outros. Com certeza que também existe a curiosidade mórbida mas existe igualmente a escolha dos diários que lemos, os diários das pessoas que nos interessam.
Pergunto-me o que quero escrever aqui, e para quem. Não sei se escrevo para os amigos. Nem tenho a certeza se quero que os amigos saibam. Afinal, aqueles que merecem já sabem. Os outros, nao importa.

Ultimamente tenho sentido uma grande necessidade de solidão. Ao contrário de muitas pessoas, para mim é difícil estar sozinha. São muitas as solicitações. Parece que sou uma companhia agradável e tenho sempre assunto de conversa. Multiplicam-se os amigos e os conhecimentos. Torna-se difícil passar umas semanas sem os ver. Já para não falar nos amigos online. A única forma de os evitar é não abrir a caixa de correio.

Solidão, esse bicho temido, é aquilo que mais preciso. Sou um ser under reconstruction.
Veremos o que sai da metamorfose.


E acrescentei:

20 de Dezembro de 2003
Prazer da solidão

O que eu gosto mais nos weblogs é a possibilidade de falar sem que alguém responda. Ao contrário de trocar mails, conversar com os amigos ou participar em fórums, no blog podemos expressar a nossa opinião sem entrar em diálogo. Sabemos que eventualmente alguém vai ler. Eventualmente alguém vai comentar. Mas não é um diálogo. É também por isso que gosto de ler os blogs dos outros. É como ler um bom livro. Nem sempre te apetece conversar com o escritor.


E ainda mais:


20 de Dezembro de 2003
"No-people mood"

Foi como lhe chamou uma amiga de outras paragens.
O que me apetecia mesmo era isolar-me, ir para o alto de uma montanha onde não pudesse comunicar com absolutamente ninguém. Só eu, os meus animais, uma televisão, alguns livros, e de preferência muitas garrafas de vodka. Ou de vinho. Não importa.
Poderia passar as noites a ver televisão, ou a ler, podia apanhar grandes bebedeiras e ninguém tinha nada a ver com isso, podia dar-me ao luxo de não tomar banho durante uma semana, podia até dar-me ao luxo de ouvir música em altos berros. À minha volta só bicharada, pássaros incomodados e curiosos, ervas, árvores, pedras.
O que eu sinto é exactamente o contrário da solidão mas é curioso que não haja uma palavra para descrever este estado de ter companhia a mais.


Sempre foi a mesma coisa, não foi?
Continua a não haver uma palavra para "companhia a mais".

Notei que as palavras parecem-me agora as de uma adolescente. Já sabia que tinha mudado muito mas não esperava ver tão nítida reflexão dessa mudança.

9 de Janeiro de 2004
Nós podemos ser aquilo que quisermos

(...) Ultimamente tenho sido o Louco do Tarot, esfarrapado e inconsciente, irresponsável, vagabundo. Nem preciso de ler as cartas para saber isso. É tão óbvio!
Tal como o Louco, não faço a mínima ideia de para onde vou nem para onde quero ir. O que eu queria não consegui e tudo indica que não conseguirei, de modo que qualquer caminho é caminho. Por isso citava outro dia o poema, “só sei que não vou por aí”. Parece-me só ter a certeza dos caminhos que não quero e por onde não vou de maneira nenhuma. Tudo o resto, em linguagem letrada, tornou-se tremendamente cagativo. (...)


Isto foi o princípio de alguma coisa.

Estou também surpreendida com a importância que eu dava às questões sociais, quando comecei a escrever o blog. As relações interpessoais, a SIDA, a ignorância, a auto-ajuda. Acho que a certa altura passei para a política e me desinteressei por isso tudo. Terá a ver com a idade?


14 de Janeiro de 2004
O nevoeiro

(...) No que estive a pensar para ficar tão deprimida? Talvez neste estudo que analisei. Nos sem abrigo que vi a dormir na rua quando vinha para casa. Que pensei em aproveitar o meu desemprego para me juntar a esses voluntários que distribuem comida pela noite de Lisboa. Mas que não, não pode ser, porque esses voluntários são todos muito "bem" e me não iam gostar de me ter lá no meio. Que afinal são pessoas. Que é por isso que não gosto de pessoas. No que li nos outros blogs sobre o estado do país. No estado do país. Que tenho pensado que devia ter emigrado mas no fundo eu sei que não, que ia ser tão feliz lá fora como aqui. Que não valeu de nada ter tirado o curso. Que devia ter ido para cabeleireira. Mas que não, que eu sei que não ficava satisfeita. Que pelo menos tentei. Que a culpa é minha. Que a culpa NÃO é só minha. Que tive azar na altura, no tempo em que nasci. Que tive uma porra de azar em tudo. Que ter azar é mais deprimente do que ter culpa. Que ter azar não se percebe, não se racionaliza. Que tive azar em nascer inteligente. Que só tenho a ganhar em queimar neurónios. E que ainda não queimei bastantes.
E que às vezes finjo que não me preocupo para não explodir. Mas que lá por dentro a máquina trabalha e pergunta "e agora?", e não encontra resposta. O coração acelera, a ansiedade é um sinal de alerta e de mau estar e de repente acordo e estou deprimida. Não, não é "por nada". É por coisas. Coisas em que não vale a pena pensar mas que me se pensam sozinhas quando me apanham distraída. Coisas que por si só merecem um comprimido ou um copo de whisky. Coisas que têm de ser anestesiadas. Rapidamente. Antes que cresçam. (...)


Ora aqui está outra que eu devia ter num poster:

21 de Janeiro de 2004

Todos os dias tenho de me lembrar de não ser a pior crítica de mim própria. Não faz bem à auto-estima.


E como eu escrevia sobre mim nessa altura! A necessidade que eu tinha de escrever sobre mim! E de responder aos comentários também! Como isso tudo mudou!

E finalmente atirei-me à análise social do país para concluir que ele é vaidoso e vive de aparências:

5 de Março de 2004
Fazer figura de merda grande
O que me irrita mais neste país nem é o caso do menino azul, nem os licenciados no desemprego, nem a miséria que alastra pelas ruas na figura dos sem abrigo, nem nada disso. Pior que nós estão os países africanos, dilacerados pela guerra e pela fome e por cabecilhas mafiosos que se alimentam do povo ignorante.
O que me irrita neste país é a mania de fingir que é mais do que é. Desde Cavaco Silva (raios o partam!) que se gerou uma atmosfera de pseudo-optimismo cego que me repugna. Já não se pode dizer que o país está mal. Está mal, mas quem o diz é apedrejado na rua. O país pré-Cavaco era uma merda, mas uma pequena merda. Uma merda insignificante. Agora o país faz parte da Europa, logo, tornou-se numa grande merda. A merda continua a ser insignificante mas inchou de gases e agora faz-se grande.
O país parece aqueles parolos que não têm onde cair mortos mas gostam de fingir que têm dinheiro. Deixam de comer para pagar as prestações do Mercedes. Vão almoçar fora mas em casa comem massa. Vão às feiras comprar imitações de roupas de marca e em casa estão às escuras para não gastar luz. Tomam banho de água fria para poupar no gás. Emprestam dinheiro a quem o pede e depois não têm para eles, só para não mostrar que precisam.


Parece-me que na altura eu estava muito disponível para conversar com as pessoas. Vivia numa espécie de louca irresponsabilidade de quem ainda não tinha aceitado o seu estatuto de escravidão, e gostava das novas possibilidades que todo este mundo abria. Era como se acreditasse que as minhas palavras de aviso iam servir para alguma coisa. Mais tarde descobri que não, que as pessoas só acreditaram quando lhes tocou na pele. Naquela altura a escuridão ainda não tinha caído sobre a terra, e notava-se. Ninguém a tinha cheirado ao longe.
Eu começava a perceber tudo, mas recusava-me a acreditar no que me estava a acontecer:

5 de Março de 2004
Memórias do cárcere presente
(...) Há muito tempo que eu percebi que para me livrar desta prisão, deste cárcere, desta sentença, tinha de deixar o passado para trás e fazer por mim. Mas, alas!, fracassei por alguma razão! Ou será que no meu destino está delineado este cárcere, esta prisão, por pecados na outra vida? Eu quero acreditar nisso. De outra forma, a minha existência seria muito mais dolorosa. (...)
Ora, tendo em conta tudo isto, é fácil perceber porque me queria (e ainda quero) meter nos copos. Esquecer. Esquecer tudo. Desligar. Desligar o cérebro. Antes disso, faça-se justiça, tentei desligar a vida. Bem, mas desligar o cérebro é quase a mesma coisa, se calhar ainda mais prazeroso. Porque só se morre uma vez mas podemos apanhar uma grande cadela todos os dias.(...)


Por volta de Abril eu começava a perder-me em livros de Anne Rice e conversas existenciais comigo própria. Era preciso decidir o que fazer. Não havia respostas. As pessoas começavam a irritar-me com as suas soluções miraculosas de quem não faz ideia do que está a falar: "se vier uma tsunami, fazemos bodyboard". Como a igorância é misericordiosa!
Terá sido por aqui que comecei a perder a paciência? Bem, os comentários deixaram de ser permitidos. Essa foi uma decisão que ainda hoje aplaudo.

17 de Abril de 2004
(...) Estou perturbada. Estou muito perturbada.
Toda esta semana andei fora de mim, talvez até fora da realidade - até que ponto é que eu sei? - e hoje dei por mim a fumar à janela ao pôr-do-sol. É que eu raramente apareço à janela. Para aparecer à janela, a fumar um delicioso cigarro e a apreciar o pôr-do-sol, é porque me estou perfeitamente a cagar para quem pode passar e pensar o que raio estou eu a fazer que o meu olhar está tão perdido e tão fora. Uma semana sem beber álcool. Sem falta dele. Com falta de tudo.
Ultimamente tenho reparado em pequenos aborrecimentos que não reparava antes. Aborrece-me a forma como o fumo emarelece a minha roupa branca e os meus livros. Livros bons. Livros caros. Cobertos por uma camada de amarelo de anos e anos de fumo, primeiro do meu pai e agora meu.
Estava a ler “O Vampiro Armand”, uma passagem no tempo da Renascença, e tive vontade de ir um a bom livro procurar um quadro de que ele fala, representando Lorenzo de Médicis, quando reparo que a capa do livro está irremediavelmente manchada pelo tempo, pelo fumo, pela humidade. Por isso queria ter uma casa onde pudesse ter uma daquelas imensas estantes de biblioteca, fechadas com portas de vidro, e poder admirar os volumes e volumes, preservados, incólumes, eternos.
Há livros demasiado bons para viverem nesta casa tão pouco protegida. Há livros que não deviam passar pelas mãos dos pobres. E muito menos ficarem por lá.
Eu gostava de me dar por contente com os pedaços belos do mundo que já consegui vislumbrar, mas eu sei que há tanto, mas tanto mais, que jamais será para mim... (...)


E depois comecei a contentar-me com menos ou, por outras palavras, a conformar-me:

19 de Abril de 2004
(...) Eu vou apreciar os momentos de felicidade como se fossem os últimos. Este fim de semana, por exemplo, quando estava a beber uma xícara de café e a minha gata, em cima da mesa, a olhar lá para fora da janela, ao meu lado. A luz natural brilhava nos olhos dela, no pêlo dela, e eu senti-me em paz, num cantinho da Terra onde não se ouvem tiros nem explosões, onde posso relaxar com um café na companhia dos animais que tanto amo e ainda ter a janela aberta para deixar entrar a luz. Resolvi não pedir mais. Naquele momento, era a felicidade.(...)


E a perder o interesse:

4 de Julho de 2004
(...) Quero ir viver no mundo dos espíritos.


E continuou, já me tinha mudado para aqui, numa sequência em, que sem dar conta, começo lentamente a desaparecer destas páginas que são em vez disso preenchidas com teorias e contemplações da mortalidade e da imortalidade:

11 de Outubro de 2004
Não, não estou deprimida. Estou aterrorizada. (...)


26 de Outubro de 2004
(...) Tem-me custado perceber que nunca serei livre. Os amigos estranham que eu não ceda a mais concessões. Já me bastam os grilhões que tenho. Eu sonho com a liberdade, como é que podem conceber pedir-me mais prisões? Pelo menos, na minha solidão eu sou livre. Livre das pessoas, livre dos afectos, até livre das restrições do amor, mas é a única liberdade que me é permitida. Não abdicarei dela.
(...)
Não irei lutar mais. Até porque não há campo de batalha. Nasci no sítio errado, no local errado, no tempo errado.
Ou, por outra perspectiva, no sítio certo, no local certo, no tempo certo para deixar de gostar da vida. Estou pronta a deixá-la. Agora vi o lado negro da existência. Bebi da taça da injustiça. Percebi a inutilidade de todas as paixões humanas. Compreendi a beleza da morte. Talvez todo este sacrifício fosse necessário. Sabe-se lá a menina mimada que eu seria de outra forma. Agora vi. Agora compreendo.


As palavras são mais pesadas e medidas. Há uma inevitabilidade em aceitar a catástrofe, mas eu continuo a resistir.
Durante meses, quase nada se lê de mim mas continuo a alertar os outros. Depois, desisto. Sei que já não falta muito para verem com os próprios olhos. Em breve já não precisarão das profecias. Começam a acordar; todos os dias acorda um.

2005 foi um ano medonho. A minha Delayed Sleep Phase Syndrome (em português, para os entendidos, simplesmente "atraso de fase"), causou-me mais problemas do que eu estava à espera. Estava mais doente do que imaginava e era mais tarde do que poderia supôr. Estava a envelhecer. Isso notou-se nas páginas deste blog.

28 de Junho de 2005
Não me sinto sozinha. Sozinha seria dizer pouco. Sinto-me abandonada, esquecida, sem valor, inútil.
Algo que a sociedade adoraria fazer desaparecer do seu meio.
E hoje até acontece que os meus pensamentos coincidem com os deles.



A jovem desapareceu. Eu própria desapareci. Mais tarde ia ser pior. Deixar de falar com amigos para eles não perceberem como a minha situação era complicada. Foi por esta altura que os posts se tornaram cada vez mais esparsos, porque não podia dizer nada a ninguém. Até já tinha contado demais. Não podia suportar a incompreensão que se lia nos comentários.
Os meus posts tornavam-se cada vez mais impessoais. Como é que isso aconteceu? Isto era para ser um diário, mas eu desapareci dele.

11 de Setembro de 2005
Shut the fuck up
Eu perdi amigos porque não tinha dinheiro para acompanhá-los.
Eu desisti de falar com gente que não ouve.


A escuridão tinha chegado. O próprio templo gótico foi devastado e as pessoas desapareceram também. Continua assim até hoje.
As conversas começaram a ser paralelas, às escondidas, em segredo. Caiu a sombra sobre tudo. Os posts começaram a ser codificados para serem inócuos. Comecei a ter medo das consequências de escrever. E, ao mesmo tempo, confortava-me a ler "O Senhor dos Anéis" e a tirar dele metáforas para a minha vida. Ia precisar delas.

18 de Dezembro de 2005
2 anos
Este blog faz hoje dois anos.
Quando comecei nunca pensei que se passassem dois anos inteiros de muita escrita e muitos desabafos.
Neste ponto da minha vida, falta-me a criatividade para escrever. Falta-me a paciência para partilhar. Acima de tudo, falta-me tolerância para ouvir. Tenho coisas muito sérias e urgentes a considerar. Coisas em que penso 24 horas por dia mas que não desejo registar aqui.
O blog está semi-abandonado. Tenho esperança de voltar a uma situação em que a criatividade tenha espaço e floresça. Neste momento está asfixiada pelas necessidades mais primárias da vida.
Haverá alguns, mais experientes, que compreenderão estas palavras. A esses deixo a certeza de que não pretendo desistir, nem do blog nem de nada, se bem que já não saiba onde ir buscar força. Ao instinto de sobrevivência, talvez.
Outros serão demasiado novos para compreender exactamente o que digo.
A todos quero agradecer o terem-me acompanhado durante estes dois anos.

It can't rain all the time.


De 2006 não há muito a dizer. Penso que isto explica tudo:

16 de Maio de 2006

Acho que nunca mais vou sorrir na minha vida.

Nunca.Mais.


Fiz um interregno, e voltei, mas voltei diferente. Para isso contibuiram razões exteriores:


2 de Junho de 2006
(des)Abril em Junho
Os tempos são de escuridão quando uma pessoa receia perder o emprego ou a vida, ou ambos, quando tem que pensar duas vezes se é seguro dizer o que pensa contra os poderes verdadeiramente instituídos.
Nunca pensei ter que dizer isto. O tempo chegou.


Para bom entendedor estas palavras bastam.
E o blog ficou mais deserto, e os posts raros cada vez mais repetitivos ou ausentes de intimismo. Fez-se sentir o peso da escravidão. Há muitas formas de silenciar um homem, e até de silenciar uma mulher como eu. A melhor continua a ser pelo desespero.

29 de Outubro de 2006
ser ou não ser? não ser
(...) Sinto as minhas energias esvaírem-se aos poucos, em fluido espesso, como se tivesse um vampiro colado ao pescoço noite e dia. O meu rosto cansado e envelhecido de profundas olheiras cadavéricas não conta história diferente. A idade, dizem, e com razão, é um estado de espírito. (...)


Daqui para a frente, não sei. Não me vou preocupar. Voltarei aqui quando tiver tempo, quando me apetecer escrever alguma coisa que mereça ser partilhada.
Há muito lá para trás sobre o movimento gótico. Sobre este está quase tudo dito. Às vezes penso que ele se encontra também moribundo, pelo que vejo e ouço e sinto. Mas sei que não é apenas o movimento gótico. É tudo a cheirar a podre por todos os lados debaixo de uma fachada que ainda se mantêm de pé mas já não consegue conter o fedor. Talvez faça tudo parte da mesma coisa, da sombra que caiu.
Porque é que este blog seria diferente? Manter-se-à de pé enquanto eu me importar. É simples como isso.

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Animais de Rua - Projecto de Esterilização e Protecção de Animais Sem Lar

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